domingo, 21 de maio de 2017

A história do Fondue

Olá, leitores!
Enquanto pensava uma nova postagem para o blog imaginei um assunto que sempre me interessou muito, mas que até então não havia nenhuma seção para esse tipo de postagem: cultura e história (não vinculados à contos de fadas e mitologias). Decidi, assim, inaugurar uma nova seção no blog para postagens de antropologia e história.
Portanto, esta seção não irá falar e focar criatura místicas e mágicas, mas sim nós, seres humanos, abarcando nossos símbolos, histórias, hábitos, etc.
Aproveitando uma leitura para minha monografia na área de antropologia alimentar, o primeiro post tratará uma breve história sobre comida: o surgimento e ressignificação do fondue.
Não deixem de comentar o que acharam da nova seção, além de deixar sugestões e pedidos!

O Fondue


O fondue é uma receita de origem suíça à base da mistura de queijos caros (normalmente Gruyère e Emmental) aquecidos e derretidos sobre a lamparina ou rechaud. Pode ser fundidos com vinho ou acompanhados à mesa com pedaços de pães, batatas ou legumes cozidos. Tais acompanhamentos devem ser mergulhados no fondue com um garfo comprido para serem cobertos com o queijo. Posteriormente, para servir de sobremesa, surgiu o fondue de chocolate, acompanhado de frutas. Foi somente neste período, na década de 50, que a iguaria ganhou fama, quando foi servido pelo chefe Conradi Egli no restaurante Chalet Suísse, em Nova York.


Se o fondue hoje é uma receita dotada de valorização e símbolo de alta gastronomia, não quer dizer que sempre foi assim!
O fondue foi criado na Suíça em meio à segunda guerra mundial. Em meio às batalhas e ao inverno rigoroso, os camponeses que viviam nas regiões montanhosas não tinham como buscar mantimentos na cidade e, assim, para não morrerem de fome, eles aproveitavam os restos de queijos os aquecendo e mergulhando pães enquanto o creme borbulhava. Era, portanto, originalmente preparados durante a noite por grupos de pastores produtores de leite, sendo sua única comida quente do dia.
Tradicionalmente, cada pastor colocava no caldeirão os restos de queijo que guardara no bolso e o pão preto (que era duro e muitos vezes preparado com sementes e cereais selvagens que eram consumidos frequentemente nas crises de fome) que guardara no outro. 
Fondue, portanto, é originado da refeição compartilhada, visando a sobrevivência a partir da reciprocidade e ajuda mútua. Ao se tornar uma receita nobre encorporou uma identidade e tradicionalidade atribuída à alta gastronomia da Suíça.


Fontes:
- A comida como linguagem, Ellen F. Woortmann

quinta-feira, 11 de maio de 2017

As doze salas do inferno - Sagitário

Uma breve introdução ao signo de sagitário:

Sagitário é o signo da positividade. Sagitarianos são versáteis e encantados por aventuras e o desconhecido. Possuem a mente aberta para novas ideias e experiências, mantendo uma atitude otimista inclusive quando as coisas parecem difíceis.
Neste signo as coisas tendem a surgir com naturalidade, pois espontaneidade é um dos traços que estão em destaque. Também são exímios em convencer os outros a acreditarem em algo, mesmo que não seja verdade, pois sagitarianos adoram inventar histórias.
Sua frase é: “Eu observo”.

A sala de Sagitário


Johanna dormia desconfortavelmente, sentia-se balançar sobre algo que não sabia o que era. Abriu os olhos sonolenta. A visão desembaçava aos poucos, enquanto manchas verdes tornavam-se uma linda floresta, repleta de árvores frondosas e exuberantes.
Avistou, enfim, que estava em cima de um cavalo de pelos negros a galopar, mas não era simplesmente um cavalo: de suas costas emergia o tronco de uma bela mulher, com seios nus e cabelos ondulados que pareciam flutuar ao vento no ritmo do galope. Era um centauro. Em suas mãos havia um arco curvo armado com uma flecha flamejante, bela e luminosa.
- Onde estou? – Murmurou Johanna.
A encantadora criatura não respondeu, apenas continuou, graciosamente, em seu percurso até finalmente encontrar uma área aberta, com uma belíssima visão para a lua cheia.
- Você pode descer agora, minha querida. – Falou a criatura.
Johanna pulou rumo ao chão. Ajeitou sua amarrotada roupa e encarou sua anfitriã. O enorme sorriso da dama transmitia grande positividade, tanto que Johanna sentiu-se serena, incapaz de acreditar que aquilo poderia ser uma sala zodiacal.
- Pode se lavar no lago à frente antes do que lhe aguarda. Devo ser sincera, estou aqui porque em algum momento de sua vida foi capaz de manter otimismo, apesar de grandes adversidades.
Johanna sentou-se diante do lago cristalino, iluminado apenas pelo luar. Levou as mãos à água, carregando um punhado para lavar seu rosto. Arrumou os emaranhados cabelos e enfim emergiu os braços no lago. Após terminar voltou-se para a hospitaleira dama e questionou:
- Não consigo compreender, és a primeira criatura amável neste terrível lugar.
Porém quando Johanna virou para encarar o ser zodiacal, uma flecha de fogo foi disparada em seu coração. E uma imensa dor tomou-lhe conta, intensificando-se cada vez mais até tudo se tornar brumas em sua visão.
- Eu não diria amável, talvez apenas gentil. Quando se é uma caçadora experiente, sabe que não deve alertar a caça antes do necessário.
Foi tudo que Johanna conseguiu ouvir antes de mergulhar em suas terríveis memórias, despertando em uma nova realidade.


Do corredor escuro ecoou um contínuo de pesados passos. O enorme homem parou diante da solitária e imunda cela empurrando, em seguida, um prato de sopa quente e um pedaço de pão velho.
- O pão está velho, mas ao menos pude esquentar a sopa.
Johanna levantou-se calmamente e pegou a refeição deixada para ela. Agradeceu o gentil guarda, sentou-se novamente rente às grades e enfim deu grandes mordidas no pão.
- Disseram-me o que aconteceu naquela distante noite e não fui capaz de acreditar que seria a culpada. Como alguém tão afetuosa e bela poderia fazer algo a uma inocente criança? Confesso que no início me aproximava assustado devido terríveis rumores, mas a cada dia que vinha a alimentar não conseguia ver tal maldade em seu coração, pois estava sempre a sorrir e a me tratar com cortesia, mesmo nesta cela fedorenta.
Johanna deu um meigo sorriso ao guarda, sem responde-lo em palavras. Assim, ele se despediu brevemente com um aceno e retirou-se da sala, voltando ao seu turno normal. A prisioneira continuou a comer calmamente, enquanto, em sua mente, tentava elaborar os planos para sair dali, pois no fundo a desesperava não saber o que aconteceria com ela se permanecesse ali por mais tempo.
Já havia meses que não enviava crianças à criatura que a mantinha bela e jovem e o fato de continuar desta maneira a surpreendia. Seria pela enorme quantidade que já havia enviado anteriormente, a proporcionando a vantagem desta grande pausa? Johanna sequer sabia se em algum momento realmente se degeneraria ou apenas morreria.
Assim que chegou àquela prisão sentiu-se furiosa e frustrada, pensou não haver maneira de ali escapar e que assim deveria apenas se entregar a morte. Porém já havia passado por tanta coisa e entregado sua alma à completa escuridão, sabia que ao morrer sua alma estaria condenada ao eterno sofrimento, pois já a havia trocado seu espírito pela carne. E através desse pensamento viu que aquele momento de dor e angústia não seria nada perto do de quando morresse. Encontrou-se, assim, otimista, pronta para traçar um plano, demorado o quanto fosse, para dali sair.
Quando terminou a refeição, deixou o prato vazio em frente às grades, deitando-se para dormir em um amontado de feno que a pinicava. Acordou com o tornozelo dolorido e machucado das correntes, mas suspirou fundo e simplesmente resolveu ignorar.
- Se quiser posso remover estas correntes, mas deverá ser o nosso segredo.
Johanna direcionou seu olhar e viu que o guarda chegara no exato momento. Ela balançou a cabeça positivamente, satisfeita. O guarda abriu sua cela cautelosamente, não porque temesse Johanna, mas cuidando para que, caso chegasse algum outro guarda no momento, pudesse disfarçar. Enfim removeu a corrente do tornozelo da prisioneira, deixando-a próxima caso houvesse necessidade de recolocá-la na presença de visita.
Se Johanna quis tentar escapar neste momento? Quis, mas sendo uma mulher esperta sabia que não podia. O guarda estava armado e possuía o dobro de seu tamanho, além de não conhecer os demais aposentos e saídas da prisão.
Passaram-se assim, cerca de duas semanas onde Johanna praticamente apenas comia e dormia. Mas enfim, certa vez, o guarda aproximou-se e dali surgiu uma conversa um pouco mais longa.
- Trouxe alguns livros para passar seu tempo, se por acaso souber ler.
Johanna assentiu com a cabeça. O guarda sorriu alegre e virou-se para se retirar, mas foi interrompido.
- E tu sabes ler?
O guarda virou surpreso e envergonhado disse que não sabia.
- Se quiser posso ler para nós ou até mesmo ensinar-te.
E o convite resplandeceu o guarda. Desse dia em diante, sempre que possível, o guarda visitava Johanna para ouvir histórias e aprender a ler, até finalmente começar a ouvir histórias da vida dela (ou pelo menos que ela dizia ser da vida dela) e contar suas próprias histórias. Dessa maneira surgiu um grande vínculo entre os dois.
Em uma noite pouco estrelada e de lua nova Johanna adormeceu profundamente, apesar do desconforto. Sonhou com seu amo demoníaco lhe dizendo:
- Tanto tempo nesta cela imunda, incapaz de me trazer o que lhe pedi. Estou perdendo a paciência, Johanna. Escapará amanhã, pois sabes que tem capacidade de pedir isto ao patético homem. Ele será incapaz de recusar, jamais conseguiria decepcionar a amada. Pobre e estúpido humano.
E num impulso Johanna acordou. Avistou de imediato o guarda sorridente ao lado de sua cela, trazendo-lhe um novo livro.
- Darius, tem algo que preciso lhe contar. – Esperou o guarda se aproximar um pouco mais – Aquela criança... sim, eu a matei...
Os olhos do guarda se esbugalharam em surpresa e decepção. Arremessou o livro ao lado e virou-se para sair imediatamente.
- Não, espere! Deve ouvir toda a história! Sim, eu a matei, mas não em plena consciência, foi graças a um terrível ser, capaz de controlar os puros. Sabes que ninguém jamais vai acreditar em mim e por isso nunca contei nada, mas tu, Darius... sei que confias em mim.
O guarda baixou a cabeça, apertou os punhos e por um momento refletiu sobre o que acabara de ouvir, mas não demorou a acreditar na mentira de Johanna.
- Há apenas um jeito de provar minha inocência, precisa me ajudar a sair daqui e assim poderei encontrar aquele que fez isso a mim e ao pobre garotinho. – Continuou Johanna em um falso pranto.
- Eu... eu ajudarei. Sairei agora e retornarei assim que o caminho estiver tranquilo para guiá-la.
- E outra coisa, Darius... Precisamos da adaga de volta, só ela poderá nos guiar até à criatura.
O guarda não respondeu, apenas deixou a sala, angustiado. No entanto Johanna estava confiante de que tudo daria certo.
No cair da noite Darius retornou à cela, retirando Johanna silenciosamente de lá. Entregou roupas para ela e a vestiu em uma capa de lã. Furtivamente a guiou por um longo corredor, desviando de alguns guardas e sem grande preocupação com outros que estavam adormecidos ou muito bêbados para notá-los. Levou-a por uma longa escadaria que descia até um canal estreito, onde um barquinho repousava. Colocou-a dentro do barco e antes que partissem, disse:
- Confio plenamente em ti a ponto de colocar minha honra e vida em tuas mãos. Deverei ir contigo e apenas retornar quando tal criatura for capturada, sendo possível provar que és inocente. – Levantou a camisa e mostrou a adaga – A adaga ficará comigo por enquanto para evitar que a criatura a controle.
Os planos não saíram exatamente como Johanna esperava, mas alegrou-se por funcionar e assim o barco partiu.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O Bispo do Mar

O Bispo do Mar é uma criatura marinha com relatos datados do século XVI. É descrito como meio peixe e meio homem, em sua cabeça forma-se uma mitra através das escamas, assim como suas nadadeiras parecem formar uma espécie de batina, semelhante às vestes eclesiásticas.
Segundo a lenda, ele foi capturado no ano de 1433 no Mar Báltico e foi oferecido ao rei da Polônia. No entanto, quando o rei apresentou seu novo espécime a um grupo de bispos católicos foi convencido a libertá-lo, pois o peixe gesticulou como se solicitasse sua libertação e após aprovada fez o sinal da cruz em gratidão, desaparecendo no mar em seguida.
As crenças da época diziam que os peixes bispos realizavam funções eclesiásticas entre as sereias e tritões.
Outro relato deste curioso animal foi dado no livro "Historia Animalium", onde o autor, Conrad Gesner, conta a aparição de outro Bispo do Mar na costa alemã em 1531, mas ao ser mantido em cativeiro recusou-se a comer e morreu em três dias.
Além do Bispo do Mar, outro peixe semelhante foi encontrado na Dinamarca por volta de 1546, este assemelhando aos monges, assim foi chamado Monge do Mar.

Os criptozoologistas acreditam que estes peixes não foram únicos, sendo uma espécie que vive nas profundezas dos oceanos. Outra teoria é de que essas criaturas são espécimes deficientes de animais marinhos reais.


domingo, 19 de março de 2017

As doze salas do inferno - Escorpião

Uma breve introdução ao signo de escorpião:

Pelo lado positivo é emotivo, decidido, poderoso e apaixonado. Pelo lado negativo, é ciumento, compulsivo e obsessivo, podendo ser ressentido, violento e teimoso.
Sua frase é “Eu desejo”.

A sala de Escorpião

Johanna sentiu uma pontada de dor em seu peito. Não teria levantado se não fosse por isso. Nada conseguiu avistar, pois se encontrava em profunda escuridão, sentia apenas o chão duro e empoeirado abaixo de si. Ouviu um enorme ser caminhar com inúmeras patas. Percebeu vir em sua direção e aflita ficou.
- Ingênua garotinha, tão desesperada estava em cultivar beleza e paixão que meu maléfico presente aceitou. Tomou a adaga feita de meu ferrão e encheu o coração com meu veneno. Agora deverás passar por minha sala, onde não há nada mais que trevas. Viverás e verás o sofrimento de cada alma inocente que corromperas em meu nome. – Ecoou uma voz doce, mas poderosa e amedrontadora.
Enquanto a dor em seu peito intensificava-se parecia que seus olhos se adaptava à escuridão, enxergando melhor a sala. Porém, não era sua visão que se tornava nítida, mas o veneno obscuro que a ligava com a maldita criatura, fazendo uma conexão de mentes. Percebeu com clareza, então, o demônio a quem lhe dirigia a palavra. Vislumbrou, apenas em seu pensamento, o tronco de uma mulher desnuda, face e feições terríveis e o restante do corpo de escorpião. Quando a imagem se completou em sua cabeça, sentiu um terrível calor e queimou até aparecer em outro lugar.

Arte de Josephine Wall

Passaram-se algumas longas noites desde o encontro de Johanna com a estranha criatura demoníaca dos sonhos. Nada acontecera desde então, nem sua aparência mudara. Mantinha, no entanto, a estranha adaga por perto, em uma pequena caixinha debaixo de sua cama, escondida aos olhos de Castiel.
O primeiro sonho mágico veio em uma noite de lua nova. Após desejar boa noite ao marido, vestiu-se com roupas suaves e embrulhou-se em sedosas cobertas, adormecendo rapidamente. Sentiu a alma translocar para longe, flutuando por cima de um bosque até chegar em uma clareira com cabanas e habitantes humildes. Parou diante de um pequeno quarto de criança, sem que controlasse seu próprio caminho. Ouviu o choro de bebê e quando percebeu a adaga em sua mão compreendeu sua tarefa.
Estava tão determinada e desejosa de beleza que sequer hesitou. Cantarolou até à criança, cravando-lhe o punhal no peito. Depois de executar o horrendo ato, sentiu uma onda de choque e pavor, mas não era arrependimento, era o sangue inocente lhe infestando à alma e o coração. Era o sentimento da terrível troca sendo executada: um inocente para o demoníaco ser alimentar-se em retorno de juventude e vigor.
Johanna retornou imediatamente após o assassinato para seu corpo, sua cama. Acordou antes do amanhecer com inesperada energia e força de vontade. Estava a se perguntar se aquilo realmente acontecera, se uma criança morrera por suas mãos ou se tudo não ficara apenas em sua imaginação, no reino dos sonhos. Correu os dedos sobre a caixinha que guardava o punhal e o verificou, estava coberto de sangue. Era real.
Se na primeira noite já havia sido tão fácil, nas outras seguintes Johanna deixou de sentir qualquer pesar. Tornara-se uma criatura desumana, apática a qualquer pessoa distante, mas tão intensa e realizada em sua relação com Castiel, que voltara a ser como quando jovens se enamoram pela primeira vez.
Estava novamente bela como uma ninfa, apesar de não mais o ser. A pele era formosa como uma pérola e os cabelos luminosos como fios de ouro. Estava tudo em perfeita harmonia em sua vida, quando algo inesperado ocorreu...
Adormeceu em uma nova noite para adentrar em seus sonhos místicos. Sobrevoou lagos cristalinos e chegou em um suntuoso castelo. Deparou-se diante de um quarto luxuoso e lá havia um belo menininho, mas dormindo ele não estava. Johanna aproximou-se vagarosamente, a adaga mantinha-se escondida sobre o manto.
- Ó bela criança, o que fazes acordado a essa hora? – Falou com sua voz mais serena.
- És a minha fada madrinha, encantadora dama?
- Sim, sim. Venha em meus braços, não tenhas medo. – Falava enquanto estendia os braços para o pequenino.

A criança foi ao embalo de Johanna e quando foi aninhada em seus braços, sentiu a vil lâmina penetrar-lhe as costas. Berrou como nunca antes, pois jamais sentira tanta dor. O grito alarmou os guardas, que correram para o quarto a tempo de ver o miúdo corpo esvaindo-se de vida nos braços da terrível dama. Agarraram Johanna com profundo ódio e desejo de vingança. Em meio à confusão a adaga voou de suas mãos e assim, ao tentar retornar de seu sonho, percebeu que não mais estava em um, não mais possuía o poder de voltar enquanto a adaga estivesse longe de si. Fora arrastada para prisão e quando Castiel acordou, sua amada esposa não encontrara ao seu lado.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Gelo e Fogo

Arte de Marta Nael
Dante cavalgava floresta adentro. Fugia de guardas, pois um furto havia sido necessário. Já escurecia, e sem muita escolha, os guardas tiveram que recuar. Dante também deveria parar e descansar, mas aquela era uma floresta desconhecida e muito fria. A menos que achasse uma gruta e acendesse uma calorosa fogueira o intenso inverno o dominaria.
O sol ainda não havia se escondido totalmente e aquele lugar já estava gélido, o clima sempre desequilibrado. Aparentava impossível um ser normal habitar tal lugar.
Vagou apressado pelas árvores até finalmente avistar uma pequena gruta. Chegando lá, amarrou seu cavalo e coletou alguns galhos. Acendeu uma fogueira e assim adormeceu profundamente, apesar do frio. Sonhou com lindas ninfas em uma terra quente e confortável, todas grandes guerreiras armadas de cajados e arcos. Ao despertar com um sopro gelado em seu rosto não avistou nada além da total escuridão, sua fogueira havia sido apagada pelos fortes ventos que vinham do norte. Do lado de fora vinha vagarosamente os primeiros flocos de neve, porém era impossível sair da gruta sem congelar.
Era o fim de Dante. Deitou encolhido nas duras rochas esperando a morte chegar, não sabia quanto tempo poderia aguentar.
Respirava alto e seus olhos pesados piscavam lentamente quando dentro da escuridão avistou uma luz vermelha ao longe. Aquela luz foi aumentando, se aproximando cada vez mais, até que em sua frente surgiu uma mulher. Seus cabelos eram ruivos, soltavam faíscas e geravam calor, era tão branca como neve e tinha olhos escuros. Vestia túnicas negras que cobriam todo o seu corpo e carregava uma cesta cheia de gravetos.
Logo a caverna aqueceu com a presença daquela misteriosa mulher e Dante, aos poucos, foi se recompondo com o calor fornecido de seus cabelos de fogo.
Aquela dama o olhou com decepção, porém, ainda assim resolveu o ajudar. Revirou os olhos e afundou suas delicadas mãos em um saco de veludo que carregava na cintura. Retirou uma pequena esfera de cristal e antes que a quebrasse abraçou Dante. Uma densa e luminosa fumaça subiu do chão e os engoliu em segundos. Quando a fumaça se dissipou estavam em uma rústica e pequena cabana. Um lindo lobo de olhos azuis o observava, mas não com ira, tinha uma expressão amistosa.
A feiticeira caminhou até uma estante e colocou sua cesta ao lado de um pilão de ervas. Em seguida caminhou até seu lobo e começou a acariciá-lo, alegremente ele a lambia e abanava seu rabo.
Dante virou-se esperando uma explicação ou que a feiticeira se apresentasse, mas nenhuma resposta veio, então dirigiu-se àquela misteriosa dama:
- Quem és?
- Erin, maga do fogo, mantenho o equilíbrio nesta gélida floresta. E este é Asgar! - Erin, sorridente, acariciou seu lobo - O que faz por aqui? Ninguém entra nesta floresta sem minha permissão.
- Fugia de guardas. Tive problemas com o rei e saí da guarda real.
- Não posso jogá-lo à morte, mas não pode ficar por muito tempo. Se quiser sobreviver estarei disposta a ensiná-lo.
Dante concordou com a cabeça. A dama fez um gesto com as mãos para que ele a seguisse. Mostrou-lhe, então, a pequena cabana, onde havia apenas dois cômodos. No primeiro cômodo havia uma lareira de pedras brancas, uma estante alta de mogno, uma cama da qual a cabeceira era decorada com galhos retorcidos, esta era embutida na parede, próximo a lareira havia um baú trancado em baixo de várias prateleiras repletas de frascos, logo ao lado de um pedestal que carregava um velho livro aberto. Ainda sobre o baú tinha um caldeirão mediano e lá no fundo havia uma bancada com uma bola de cristal. O segundo cômodo havia uma banheira, um espelho decorado de corpo inteiro, mais um baú, porém este não estava trancado, e bem no canto, um recipiente metálico. A porta de entrada tinha símbolos e pontas arredondadas.
Após mostrar sua moradia a Dante, retirou do baú um cobertor e um travesseiro e entregou-lhe. Disse então para descansar e que começariam o treinamento pela manhã.
Os primeiros raios de sol surgiram e algum tempo depois Erin levantou. Lavou-se na banheira e após terminar, emergiu sua mão na água, que começou a evaporar conforme sua mão ficava avermelhada. Colocou novamente sua túnica e sentou-se na bancada esperando Dante acordar. Ele não levantou. Erin sinalizou com a cabeça para que Asgar pulasse em Dante e o lambesse para acordá-lo. Asgar obedeceu.
Ele acordou assustado e olhou para Erin que sorria sarcasticamente.
- Vamos! Tens muito o que aprender!
Dante aprontou-se apressadamente. Em seguida saiu com Erin da pequena cabana. O lado de fora era coberto por rochas, folhas, musgos e flores, apenas a porta aparecia. O cavalo de Dante estava amarrado ao lado de fora por uma corda mágica, que impedia que sentisse muito frio. Próximo a eles estava o lago da qual Erin retirava água para encher, principalmente, sua banheira.
- Caso queira morar nesta floresta o ensinarei e permitirei. Caso queira partir o ajudarei. Qual a sua escolha? - Disse Erin antes que entrassem mais na floresta.
- Se partir terei de ser nômade, quero ficar e aprender.
- Certo. Então te ensinarei a caçar.
Dante caiu na gargalhada. Ainda com dificuldade de parar de rir, disse:
- Oras! Eu sou um guerreiro, eu sei caçar!
- É mesmo? Quero ver então, isso vai ser hilário! - Disse Erin ironicamente.
Os dois penetraram floresta adentro, passando pela neve e os altos pinheiros até que encontraram o local ideal. Erin sentou-se em uma pedra e arqueou as sobrancelhas para Dante. Ele pegou sua espada e posicionou-se. Passaram alguns segundos e as árvores ao leste deles começaram a balançar. Dante girou a espada e sorriu. As moitas se abriram e saiu algo parecido com um javali, porém aparentava ser feito de gelo, tinha pequenas asas, seis patas e um chifre bem no meio da testa.
Dante arregalou os olhos impressionado, mas logo avançou. Dilacerou um golpe no estranho animal, que numa velocidade que seus olhos não puderam captar, desviou. Dante retirou de seu cinturão um punhal e virou o arremessando, porém o animal soltou uma baforada que congelou o punhal. Novamente ele tentou dar-lhe outro golpe de espada, lateralmente para que não desviasse, mas o bruto animal planou e caiu sobre Dante, que o empurrava desesperado para que não o chifrasse.
A maga já quase caindo de tanto rir parou por um instante e começou a cantarolar. Um arco energético foi conjurado em suas mãos e um tiro luminoso acertou aquele "javali", quebrando o aparente casco de gelo. O sangue quente escorreu.
- Ué! Não disse que sabia caçar? - Erin zombou.
Dante levantou-se removendo o cadáver ainda quente. Contraditoriamente. Enfim disse, eufórico:
- Eu nunca vi este animal antes!
- Exato! Como pode dizer que sabe caçar em um lugar desconhecido, com animais desconhecidos? Vamos, pegue esse grohk para comermos. Após a refeição tentamos novamente.
Dante colocou sua espada na bainha e carregou a caça nas costas até a cabana. Chegando lá o depositou sobre o balcão enquanto Erin o preparava, temperando com suas ervas, removendo seu casco, cortando e cozinhando no caldeirão.
- Caso não saiba cozinhar acho bom ter prestado atenção! - Disse Erin dirigindo-se a Dante.
Todos se deliciaram com a refeição, inclusive Asgar. Assim que terminaram, sem procrastinar, voltaram para a floresta.
- Poucos animais daqui são caçados com espadas ou lanças, alguns o essencial são armadilhas, mas a maioria se caçam com flechas ou feitiços de ataque. Como não tem classe de mago lhe resta arcos ou balestras, mas pelo visto não tem nada disso. Sendo assim, sua primeira tarefa será fazer um arco.
- Certo. Precisarei de um machado para coletar madeira - Murmurou Dante.
- Não carrega ferramentas básicas? Em nome de Ez! Quanto despreparo! - Erin falava jogando suas mãos ao céu - Tome isto, poderá lhe ser útil.
Erin colocou sua mão naquele familiar saquinho de veludo e retirou duas esferas cristalinas, porém de tons diferentes. Entregou ambas a Dante e voltou a lhe dirigir a palavra:
- Esta de tom esverdeado irá conjurar uma picareta, guarde com cuidado, pois nos será útil mais tarde. Esta outra conjura um machado, ela não dura muito tempo, então colete o máximo de madeira que conseguir. Estarei aqui para ajudá-lo, mas não farei nada em teu lugar, terá que aprender.
Erin sentou-se ao lado auxiliando no que fosse necessário. Dante com seu machado de energia golpeava o pinheiro com precisão. Coletou o quanto pôde de madeira antes que seu machado começasse a dissipar. Ainda com as instruções de Erin entalhou com sua adaga no tronco o arco, bem simples, pois era o primeiro.
A maga retirou de seus apetrechos uma corda própria e entregou-lhe para que finalizasse seu arco. Ainda com as sobras da madeira, entalhou dois cabos e várias hastes de flecha. Recebeu, mais uma vez de Erin, várias penas.
Dirigiram-se depois para uma distante caverna onde coletaram os minérios necessários para a finalização de suas ferramentas, mas ainda era necessário uma forja.
Erin sempre conjurou todos os seus apetrechos, aliás seu dom era magia e não metalurgia. Ainda assim se precisasse forjar algo poderia fazer isso com as próprias mãos, pois sua maior habilidade era o fogo. Já Dante precisaria caminhar até a cidade, era a forja mais próxima, mas Erin permitiu que ele só fosse lá caso forjasse algo futuramente. Neste momento ela se encarregaria do trabalho.
Tanto trabalho para finalmente caçar um grohk. Dante mais uma vez foi próximo à sua toca. O grohk com seu olfato apurado rapidamente sentiu o cheiro de Dante e avançou. Erin gritou-lhe:
- Sua velocidade vem da magia de seus chifres, não de suas curtas pernas. Deverá atirar três movimentos adiantados, mas cuidado caso ele plane.
Dante mirou, não era a primeira vez que usava um arco. Seu tiro foi certeiro, exatamente três movimentos adiantados. Dante sorriu para Erin comemorando. Largaram o cadáver por lá mesmo, pois já haviam matado a fome.
- Muito bom! Aprendeu rápido! Vamos coletar um pouco de madeira ao sul para a tarefa de amanhã, dessa vez ajudarei a coletar.
Desceram ao sul, ofegantes. Cortaram madeira até o crepúsculo, deixando empilhadas por lá mesmo. Antes do anoitecer já estavam de volta. Para que Dante aprendesse mais, Erin entregou-lhe um livro sobre plantas e criaturas daquela floresta, ela mesma havia escrito.
Dante dormiu realizado e ao amanhecer novamente estavam caminhando em direção ao sul. Estavam exatamente no local onde haviam depositado seus troncos, mas madeira nenhuma os esperavam!
O olhar de Dante focou em um pedaço de pele discreto e pouco visível. Logo anunciou, "trolls da montanha". Era sinal de que realmente havia estudado durante a noite. Erin olhou impressionada.
Estavam determinados a recuperar a madeira que haviam coletado. Subiram as montanhas até a gruta do troll, por sorte era uma criatura solitária.
Finalmente o encontraram, rodeado por troncos, pois era uma de suas características juntar madeira, sem nenhuma finalidade. Ao avistar seus oponentes, começou a lançar pedras. Dante desviava ou bloqueava as pedras menores com sua espada. Erin fazia o mesmo, lançando feitiços que as jogavam ao longe.
Quando Dante se aproximou o troll balançou os braços de um lado ao outro tentando acertá-lo, mas Dante desviava, até que viu a oportunidade de pular em suas costas agarrando-lhe pelo braço. Erin lançava explosões nos braços do troll, impedindo que Dante fosse removido de seus costas. Dilacerando um golpe de espada no crânio, Dante matou a criatura.
Dante observou a gruta e concluiu que seria melhor do que qualquer cabana que construísse, decidiu ficar por lá mesmo e que iria utilizar aquela madeira para construir móveis e portas a deixando mais confortável. Erin concordou e partiu lhe concedendo visitas quando desejasse.