domingo, 19 de março de 2017

As doze salas do inferno - Escorpião

Uma breve introdução ao signo de escorpião:

Pelo lado positivo é emotivo, decidido, poderoso e apaixonado. Pelo lado negativo, é ciumento, compulsivo e obsessivo, podendo ser ressentido, violento e teimoso.
Sua frase é “Eu desejo”.

A sala de Escorpião

Johanna sentiu uma pontada de dor em seu peito. Não teria levantado se não fosse por isso. Nada conseguiu avistar, pois se encontrava em profunda escuridão, sentia apenas o chão duro e empoeirado abaixo de si. Ouviu um enorme ser caminhar com inúmeras patas. Percebeu vir em sua direção e aflita ficou.
- Ingênua garotinha, tão desesperada estava em cultivar beleza e paixão que meu maléfico presente aceitou. Tomou a adaga feita de meu ferrão e encheu o coração com meu veneno. Agora deverás passar por minha sala, onde não há nada mais que trevas. Viverás e verás o sofrimento de cada alma inocente que corromperas em meu nome. – Ecoou uma voz doce, mas poderosa e amedrontadora.
Enquanto a dor em seu peito intensificava-se parecia que seus olhos se adaptava à escuridão, enxergando melhor a sala. Porém, não era sua visão que se tornava nítida, mas o veneno obscuro que a ligava com a maldita criatura, fazendo uma conexão de mentes. Percebeu com clareza, então, o demônio a quem lhe dirigia a palavra. Vislumbrou, apenas em seu pensamento, o tronco de uma mulher desnuda, face e feições terríveis e o restante do corpo de escorpião. Quando a imagem se completou em sua cabeça, sentiu um terrível calor e queimou até aparecer em outro lugar.

Arte de Josephine Wall

Passaram-se algumas longas noites desde o encontro de Johanna com a estranha criatura demoníaca dos sonhos. Nada acontecera desde então, nem sua aparência mudara. Mantinha, no entanto, a estranha adaga por perto, em uma pequena caixinha debaixo de sua cama, escondida aos olhos de Castiel.
O primeiro sonho mágico veio em uma noite de lua nova. Após desejar boa noite ao marido, vestiu-se com roupas suaves e embrulhou-se em sedosas cobertas, adormecendo rapidamente. Sentiu a alma translocar para longe, flutuando por cima de um bosque até chegar em uma clareira com cabanas e habitantes humildes. Parou diante de um pequeno quarto de criança, sem que controlasse seu próprio caminho. Ouviu o choro de bebê e quando percebeu a adaga em sua mão compreendeu sua tarefa.
Estava tão determinada e desejosa de beleza que sequer hesitou. Cantarolou até à criança, cravando-lhe o punhal no peito. Depois de executar o horrendo ato, sentiu uma onda de choque e pavor, mas não era arrependimento, era o sangue inocente lhe infestando à alma e o coração. Era o sentimento da terrível troca sendo executada: um inocente para o demoníaco ser alimentar-se em retorno de juventude e vigor.
Johanna retornou imediatamente após o assassinato para seu corpo, sua cama. Acordou antes do amanhecer com inesperada energia e força de vontade. Estava a se perguntar se aquilo realmente acontecera, se uma criança morrera por suas mãos ou se tudo não ficara apenas em sua imaginação, no reino dos sonhos. Correu os dedos sobre a caixinha que guardava o punhal e o verificou, estava coberto de sangue. Era real.
Se na primeira noite já havia sido tão fácil, nas outras seguintes Johanna deixou de sentir qualquer pesar. Tornara-se uma criatura desumana, apática a qualquer pessoa distante, mas tão intensa e realizada em sua relação com Castiel, que voltara a ser como quando jovens se enamoram pela primeira vez.
Estava novamente bela como uma ninfa, apesar de não mais o ser. A pele era formosa como uma pérola e os cabelos luminosos como fios de ouro. Estava tudo em perfeita harmonia em sua vida, quando algo inesperado ocorreu...
Adormeceu em uma nova noite para adentrar em seus sonhos místicos. Sobrevoou lagos cristalinos e chegou em um suntuoso castelo. Deparou-se diante de um quarto luxuoso e lá havia um belo menininho, mas dormindo ele não estava. Johanna aproximou-se vagarosamente, a adaga mantinha-se escondida sobre o manto.
- Ó bela criança, o que fazes acordado a essa hora? – Falou com sua voz mais serena.
- És a minha fada madrinha, encantadora dama?
- Sim, sim. Venha em meus braços, não tenhas medo. – Falava enquanto estendia os braços para o pequenino.

A criança foi ao embalo de Johanna e quando foi aninhada em seus braços, sentiu a vil lâmina penetrar-lhe as costas. Berrou como nunca antes, pois jamais sentira tanta dor. O grito alarmou os guardas, que correram para o quarto a tempo de ver o miúdo corpo esvaindo-se de vida nos braços da terrível dama. Agarraram Johanna com profundo ódio e desejo de vingança. Em meio à confusão a adaga voou de suas mãos e assim, ao tentar retornar de seu sonho, percebeu que não mais estava em um, não mais possuía o poder de voltar enquanto a adaga estivesse longe de si. Fora arrastada para prisão e quando Castiel acordou, sua amada esposa não encontrara ao seu lado.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Gelo e Fogo

Arte de Marta Nael
Dante cavalgava floresta adentro. Fugia de guardas, pois um furto havia sido necessário. Já escurecia, e sem muita escolha, os guardas tiveram que recuar. Dante também deveria parar e descansar, mas aquela era uma floresta desconhecida e muito fria. A menos que achasse uma gruta e acendesse uma calorosa fogueira o intenso inverno o dominaria.
O sol ainda não havia se escondido totalmente e aquele lugar já estava gélido, o clima sempre desequilibrado. Aparentava impossível um ser normal habitar tal lugar.
Vagou apressado pelas árvores até finalmente avistar uma pequena gruta. Chegando lá, amarrou seu cavalo e coletou alguns galhos. Acendeu uma fogueira e assim adormeceu profundamente, apesar do frio. Sonhou com lindas ninfas em uma terra quente e confortável, todas grandes guerreiras armadas de cajados e arcos. Ao despertar com um sopro gelado em seu rosto não avistou nada além da total escuridão, sua fogueira havia sido apagada pelos fortes ventos que vinham do norte. Do lado de fora vinha vagarosamente os primeiros flocos de neve, porém era impossível sair da gruta sem congelar.
Era o fim de Dante. Deitou encolhido nas duras rochas esperando a morte chegar, não sabia quanto tempo poderia aguentar.
Respirava alto e seus olhos pesados piscavam lentamente quando dentro da escuridão avistou uma luz vermelha ao longe. Aquela luz foi aumentando, se aproximando cada vez mais, até que em sua frente surgiu uma mulher. Seus cabelos eram ruivos, soltavam faíscas e geravam calor, era tão branca como neve e tinha olhos escuros. Vestia túnicas negras que cobriam todo o seu corpo e carregava uma cesta cheia de gravetos.
Logo a caverna aqueceu com a presença daquela misteriosa mulher e Dante, aos poucos, foi se recompondo com o calor fornecido de seus cabelos de fogo.
Aquela dama o olhou com decepção, porém, ainda assim resolveu o ajudar. Revirou os olhos e afundou suas delicadas mãos em um saco de veludo que carregava na cintura. Retirou uma pequena esfera de cristal e antes que a quebrasse abraçou Dante. Uma densa e luminosa fumaça subiu do chão e os engoliu em segundos. Quando a fumaça se dissipou estavam em uma rústica e pequena cabana. Um lindo lobo de olhos azuis o observava, mas não com ira, tinha uma expressão amistosa.
A feiticeira caminhou até uma estante e colocou sua cesta ao lado de um pilão de ervas. Em seguida caminhou até seu lobo e começou a acariciá-lo, alegremente ele a lambia e abanava seu rabo.
Dante virou-se esperando uma explicação ou que a feiticeira se apresentasse, mas nenhuma resposta veio, então dirigiu-se àquela misteriosa dama:
- Quem és?
- Erin, maga do fogo, mantenho o equilíbrio nesta gélida floresta. E este é Asgar! - Erin, sorridente, acariciou seu lobo - O que faz por aqui? Ninguém entra nesta floresta sem minha permissão.
- Fugia de guardas. Tive problemas com o rei e saí da guarda real.
- Não posso jogá-lo à morte, mas não pode ficar por muito tempo. Se quiser sobreviver estarei disposta a ensiná-lo.
Dante concordou com a cabeça. A dama fez um gesto com as mãos para que ele a seguisse. Mostrou-lhe, então, a pequena cabana, onde havia apenas dois cômodos. No primeiro cômodo havia uma lareira de pedras brancas, uma estante alta de mogno, uma cama da qual a cabeceira era decorada com galhos retorcidos, esta era embutida na parede, próximo a lareira havia um baú trancado em baixo de várias prateleiras repletas de frascos, logo ao lado de um pedestal que carregava um velho livro aberto. Ainda sobre o baú tinha um caldeirão mediano e lá no fundo havia uma bancada com uma bola de cristal. O segundo cômodo havia uma banheira, um espelho decorado de corpo inteiro, mais um baú, porém este não estava trancado, e bem no canto, um recipiente metálico. A porta de entrada tinha símbolos e pontas arredondadas.
Após mostrar sua moradia a Dante, retirou do baú um cobertor e um travesseiro e entregou-lhe. Disse então para descansar e que começariam o treinamento pela manhã.
Os primeiros raios de sol surgiram e algum tempo depois Erin levantou. Lavou-se na banheira e após terminar, emergiu sua mão na água, que começou a evaporar conforme sua mão ficava avermelhada. Colocou novamente sua túnica e sentou-se na bancada esperando Dante acordar. Ele não levantou. Erin sinalizou com a cabeça para que Asgar pulasse em Dante e o lambesse para acordá-lo. Asgar obedeceu.
Ele acordou assustado e olhou para Erin que sorria sarcasticamente.
- Vamos! Tens muito o que aprender!
Dante aprontou-se apressadamente. Em seguida saiu com Erin da pequena cabana. O lado de fora era coberto por rochas, folhas, musgos e flores, apenas a porta aparecia. O cavalo de Dante estava amarrado ao lado de fora por uma corda mágica, que impedia que sentisse muito frio. Próximo a eles estava o lago da qual Erin retirava água para encher, principalmente, sua banheira.
- Caso queira morar nesta floresta o ensinarei e permitirei. Caso queira partir o ajudarei. Qual a sua escolha? - Disse Erin antes que entrassem mais na floresta.
- Se partir terei de ser nômade, quero ficar e aprender.
- Certo. Então te ensinarei a caçar.
Dante caiu na gargalhada. Ainda com dificuldade de parar de rir, disse:
- Oras! Eu sou um guerreiro, eu sei caçar!
- É mesmo? Quero ver então, isso vai ser hilário! - Disse Erin ironicamente.
Os dois penetraram floresta adentro, passando pela neve e os altos pinheiros até que encontraram o local ideal. Erin sentou-se em uma pedra e arqueou as sobrancelhas para Dante. Ele pegou sua espada e posicionou-se. Passaram alguns segundos e as árvores ao leste deles começaram a balançar. Dante girou a espada e sorriu. As moitas se abriram e saiu algo parecido com um javali, porém aparentava ser feito de gelo, tinha pequenas asas, seis patas e um chifre bem no meio da testa.
Dante arregalou os olhos impressionado, mas logo avançou. Dilacerou um golpe no estranho animal, que numa velocidade que seus olhos não puderam captar, desviou. Dante retirou de seu cinturão um punhal e virou o arremessando, porém o animal soltou uma baforada que congelou o punhal. Novamente ele tentou dar-lhe outro golpe de espada, lateralmente para que não desviasse, mas o bruto animal planou e caiu sobre Dante, que o empurrava desesperado para que não o chifrasse.
A maga já quase caindo de tanto rir parou por um instante e começou a cantarolar. Um arco energético foi conjurado em suas mãos e um tiro luminoso acertou aquele "javali", quebrando o aparente casco de gelo. O sangue quente escorreu.
- Ué! Não disse que sabia caçar? - Erin zombou.
Dante levantou-se removendo o cadáver ainda quente. Contraditoriamente. Enfim disse, eufórico:
- Eu nunca vi este animal antes!
- Exato! Como pode dizer que sabe caçar em um lugar desconhecido, com animais desconhecidos? Vamos, pegue esse grohk para comermos. Após a refeição tentamos novamente.
Dante colocou sua espada na bainha e carregou a caça nas costas até a cabana. Chegando lá o depositou sobre o balcão enquanto Erin o preparava, temperando com suas ervas, removendo seu casco, cortando e cozinhando no caldeirão.
- Caso não saiba cozinhar acho bom ter prestado atenção! - Disse Erin dirigindo-se a Dante.
Todos se deliciaram com a refeição, inclusive Asgar. Assim que terminaram, sem procrastinar, voltaram para a floresta.
- Poucos animais daqui são caçados com espadas ou lanças, alguns o essencial são armadilhas, mas a maioria se caçam com flechas ou feitiços de ataque. Como não tem classe de mago lhe resta arcos ou balestras, mas pelo visto não tem nada disso. Sendo assim, sua primeira tarefa será fazer um arco.
- Certo. Precisarei de um machado para coletar madeira - Murmurou Dante.
- Não carrega ferramentas básicas? Em nome de Ez! Quanto despreparo! - Erin falava jogando suas mãos ao céu - Tome isto, poderá lhe ser útil.
Erin colocou sua mão naquele familiar saquinho de veludo e retirou duas esferas cristalinas, porém de tons diferentes. Entregou ambas a Dante e voltou a lhe dirigir a palavra:
- Esta de tom esverdeado irá conjurar uma picareta, guarde com cuidado, pois nos será útil mais tarde. Esta outra conjura um machado, ela não dura muito tempo, então colete o máximo de madeira que conseguir. Estarei aqui para ajudá-lo, mas não farei nada em teu lugar, terá que aprender.
Erin sentou-se ao lado auxiliando no que fosse necessário. Dante com seu machado de energia golpeava o pinheiro com precisão. Coletou o quanto pôde de madeira antes que seu machado começasse a dissipar. Ainda com as instruções de Erin entalhou com sua adaga no tronco o arco, bem simples, pois era o primeiro.
A maga retirou de seus apetrechos uma corda própria e entregou-lhe para que finalizasse seu arco. Ainda com as sobras da madeira, entalhou dois cabos e várias hastes de flecha. Recebeu, mais uma vez de Erin, várias penas.
Dirigiram-se depois para uma distante caverna onde coletaram os minérios necessários para a finalização de suas ferramentas, mas ainda era necessário uma forja.
Erin sempre conjurou todos os seus apetrechos, aliás seu dom era magia e não metalurgia. Ainda assim se precisasse forjar algo poderia fazer isso com as próprias mãos, pois sua maior habilidade era o fogo. Já Dante precisaria caminhar até a cidade, era a forja mais próxima, mas Erin permitiu que ele só fosse lá caso forjasse algo futuramente. Neste momento ela se encarregaria do trabalho.
Tanto trabalho para finalmente caçar um grohk. Dante mais uma vez foi próximo à sua toca. O grohk com seu olfato apurado rapidamente sentiu o cheiro de Dante e avançou. Erin gritou-lhe:
- Sua velocidade vem da magia de seus chifres, não de suas curtas pernas. Deverá atirar três movimentos adiantados, mas cuidado caso ele plane.
Dante mirou, não era a primeira vez que usava um arco. Seu tiro foi certeiro, exatamente três movimentos adiantados. Dante sorriu para Erin comemorando. Largaram o cadáver por lá mesmo, pois já haviam matado a fome.
- Muito bom! Aprendeu rápido! Vamos coletar um pouco de madeira ao sul para a tarefa de amanhã, dessa vez ajudarei a coletar.
Desceram ao sul, ofegantes. Cortaram madeira até o crepúsculo, deixando empilhadas por lá mesmo. Antes do anoitecer já estavam de volta. Para que Dante aprendesse mais, Erin entregou-lhe um livro sobre plantas e criaturas daquela floresta, ela mesma havia escrito.
Dante dormiu realizado e ao amanhecer novamente estavam caminhando em direção ao sul. Estavam exatamente no local onde haviam depositado seus troncos, mas madeira nenhuma os esperavam!
O olhar de Dante focou em um pedaço de pele discreto e pouco visível. Logo anunciou, "trolls da montanha". Era sinal de que realmente havia estudado durante a noite. Erin olhou impressionada.
Estavam determinados a recuperar a madeira que haviam coletado. Subiram as montanhas até a gruta do troll, por sorte era uma criatura solitária.
Finalmente o encontraram, rodeado por troncos, pois era uma de suas características juntar madeira, sem nenhuma finalidade. Ao avistar seus oponentes, começou a lançar pedras. Dante desviava ou bloqueava as pedras menores com sua espada. Erin fazia o mesmo, lançando feitiços que as jogavam ao longe.
Quando Dante se aproximou o troll balançou os braços de um lado ao outro tentando acertá-lo, mas Dante desviava, até que viu a oportunidade de pular em suas costas agarrando-lhe pelo braço. Erin lançava explosões nos braços do troll, impedindo que Dante fosse removido de seus costas. Dilacerando um golpe de espada no crânio, Dante matou a criatura.
Dante observou a gruta e concluiu que seria melhor do que qualquer cabana que construísse, decidiu ficar por lá mesmo e que iria utilizar aquela madeira para construir móveis e portas a deixando mais confortável. Erin concordou e partiu lhe concedendo visitas quando desejasse.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O Vale Solitário

Esta imagem foi enviada para transformar-se em conto. O objetivo é fazer textos bem curtinhos que tragam imaginação e uma vivente história ao leitor, podendo ser identificada e admirada através de cada traço, mesmo que em poucas linhas.

Imagem enviada por Andrei

O alce solitário corria pelas montanhas todos os dias, mas durante o silêncio da noite adormecia triste. Nunca soubera exatamente como ali chegou, mas lá estava, desde que era um filhote. Era uma criatura muito infeliz, pois desde que se lembrava estava sozinho, sem amigo nenhum. Apesar disto, ali era um lugar formidável para viver, possuía o céu mais belo e estrelado de todos, rochedos que davam para um rio de água pura e cristalina e a mais verde e deliciosa grama. As árvores eram tão encantadoras e cheias de folhagem que pareciam cantar serenamente quando o vento lhes trespassavam.
Certa madrugada, após correr até se exaustar, deitou sobre algumas folhas secas para descansar. Observou as estrelas para que assim logo adormecesse. Avistou, no entanto, uma estrela cadente e assim desejou profundamente não ser tão solitário. Enfim fechou os olhos e dormiu.
No dia seguinte, quando o céu escureceu, preparou-se para novamente sossegar, mas antes que conseguisse adormecer algo brilhou intensamente. Um pequenino ser luminoso se aproximou e enfim lhe falou:
- Sou o espírito da estrela e seu pedido vim atender. Serei tua mais fiel amiga, no entanto só poderás me enxergar durante a noite, onde brilharei com todo meu esplendor. Brincaremos e correremos por todos os campos e bosques verdejantes. - Sorriu a pequena fadinha.
E desde então, o gracioso alce enamorou-se da noite e nunca mais sentiu-se solitário e triste.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Descrição de personagem: Castiel

Se "As doze salas do inferno" surgiu para ser uma série completamente medieval, este personagem muda um pouco isto, adicionando novos conceitos e mesclando elementos de diferentes épocas a este mundo fictício.
Castiel é introduzido na história como o mestre do circo de aberrações. Inicialmente é um sujeito mesquinho, malicioso e ambicioso. Ele explora suas atrações com o intuito de enriquecer cada vez mais, no entanto, nem por isso deixa de desenvolver certa afeição pelos circenses, deixando também com que portem-se como uma grande família que busca sobrevivência.
Quando finalmente encontra o amor, Castiel sofre uma completa transformação, desde sua personalidade até seu modo de viver. Torna-se um homem preocupado, cuidadoso e benevolente. Com o passar da história, este personagem ganha grande importância, sendo essencial para construção do psicológico de sua esposa Johanna, a protagonista.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

As doze salas do inferno - Libra

Uma breve introdução ao signo de libra:

Diplomáticos, encantadores e sociáveis. Os librianos são idealistas, otimistas e românticos, buscando sempre beleza e harmonia. No entanto, são muito vaidosos, indecisos e frívolos.
Sua frase é: "eu equilibro".

A sala de Libra

Johanna despertou de sua visão com um sopro gélido em sua face. O medo ligeiramente a atingiu, pois já se acostumara a surgir em novas salas zodiacais e assim esperava acontecer, mas quando olhou ao redor nada avistou e parecia que nada iria acontecer. Ela estava sobre um grande círculo metálico, onde era possível avistar seu limite, ao qual era cercado de neblina. Caminhou até a beirada e se percebeu em uma colossal elevação, onde o chão não podia ser avistado, toda a paisagem se perdia em brumas.
Tentou buscar uma saída, mas não encontrou. Restou-lhe apenas sentar-se e esperar algo acontecer. Pareceu esperar por horas quando uma drástica mudança no vento ocorreu e a superfície circular começou a balançar cada vez mais intensamente até que Johanna não pode se segurar e de lá despencou.
A queda tão longa possibilitou que visse onde estava: Uma enorme estátua segurando uma balança, e de um de seus pratos ela despencara. Enquanto caia sentiu um toque macio acompanhado de um doce sussurrar. “Conte-me sua história, bela ninfa”. E quando Johanna pôs-se a falar, som algum saiu de sua boca. Mas afinal, o que poderia dizer se de nada recordava?
Aquela presença não era corpórea, habitava na mente daqueles que por ali passavam. “Consigo sentir o peso de sua alma”: ecoou a criatura em seu interior.

Quando o chão parecia se aproximar finalmente sentiu a presença esvair-se de seu corpo. Pôde enxergar uma silhueta à sua frente e sentir sua energia sugada pela balança dourada enquanto fundia-se com a neblina e em um novo ambiente surgia.



Johanna havia voltado dos mortos, mas seu corpo ainda não se adaptara. Passara tantos anos sendo uma ninfa que se acostumou em ser demasiada bela, mas ao renascer toda beleza e perfeição a deixara. Sua pele permanecia pálida, seus olhos fundos e esbranquiçados, os lábios roxos e o cabelo não mais mantinha-se firme à cabeça.
Castiel cuidava bem da amada, mesmo que com o passar dos anos não a olhasse mais com desejo, afinal, Johanna estava cada vez mais mórbida e sem vida, sequer sabia quanto tempo iria durar.
Haviam permanecido no castelo e se livrado de toda quinquilharia do antigo doutor, e quem na cidade poderia suspeitar do assassinato? Todos sempre diziam que ali vivia um louco, que os experimentos era uma afronta a deus e que um dia acabaria se matando, para o mundo aquele dia havia chegado. Se um servo devia ou não ficar com o local de um homem sem família não interessava a ninguém, pois o histórico do castelo espantava e mantinha todos a distância, ao menos até Castiel tornar-se um verdadeiro senhor dos bailes.
Castiel era tão amoroso e prestativo que Johanna acabou o amando também e terminaram casando-se. Ainda assim, era mantida escondida das demais pessoas devido sua aparência, mas Johanna sabia que isso se devia ao medo e preocupação de Castiel, ela sabia que ele a amava.

Johanna escovava os ralos cabelos loiros que lhe restavam, tentava prendê-los de algum modo. Via refletida no espelho da penteadeira sua incômoda imagem. Estava tão feia e havia perdido tanto, seu sofrimento era imenso, mas ainda assim era grata pela vida, pois havia o amor de Castiel.
Avistou o marido adentrando o quarto e largando as galochas sujas de lama à porta. Ele estampava um sorriso alegre, aparentemente pela caçada bem sucedida. O bom humor encorajou Johanna a revelar seus pensamentos:
- Castiel, eu o amo tanto! Lembro quando o conheci, era um sujeito desprezível e malicioso, mas mudou tanto por mim. Hoje é um homem bom e desde que se tornou este homem nada te dei.
- Ora, querida, não é verdade. – Disse com a voz cansada.
- Deixe-me lhe dar um filho, já faz tanto tempo...
Johanna notou o olhar de desinteresse que pairava sobre seu corpo. O marido não a desejava.
- Todos os nossos filhos morreram dentro de ti e não a culpo, foi este experimento, mas ele a trouxe de volta para mim, então está tudo bem. Vem, vamos dormir.
Johanna escondeu-se nas cobertas enquanto lentamente o marido adormecia. Na fria escuridão da noite chorou. Isto era vida?
Um novo dia surgiu, belo e cálido, mas assim Johanna não conseguiu o perceber. Sua infelicidade tornara-se tão grande à medida que se distanciava do amado. A cada novo baile ela espreitava entre as sombras para admirar e invejar as belas convidadas. Certa noite avistou tão encantadora mulher que se questionou como poderia haver tanta beleza em uma mera humana. Sentiu tanta inveja e angústia naquela noite que se escondeu do olhar do marido por um longo tempo.
Conforme os anos passavam, muitos convidados deixaram de ser estranhos e tornaram-se amigos de Castiel, inclusive a bela invejada. Os bailes suntuosos, que exigiam muito dinheiro, tornaram-se mais escassos e logo foram substituídos por reuniões mais privadas. Apesar da demora, Johanna acabou por ser apresentada.
- Minha amada esposa tem uma rara e terrível enfermidade. – Castiel mentia.
Johanna presenciava as reuniões até quando podia suportar, mas sempre fugia sonolenta para o quarto antes de todos. Uma noite alguém a seguiu e surpresa ela viu que era Emma, a bela. Ela segurou Johanna pelo braço e disse com uma voz serena:
- Eu vi como me olhas, como é possível haver tanta inveja?
Johanna sentiu o sangue pulsar de ódio, sentia-se tão humilhada.
- Saia já deste quarto... Como pode ser tão cruel? – Choramingou.
- Cruel? Eu vim ajudar, entendestes errado. Consigo ver através dos teus olhos e posso dizer-te: está certa, não é possível haver tanta beleza em uma mera humana, pois humana já não o sou. Eu vi o seu passado, seus pecados, suas mentiras, sei que és especial e aqui estou para lhe oferecer um presente. Seja como eu e terás tua beleza de volta e a tão desejada afeição de Castiel.
Johanna mal podia acreditar no que ouvia. Seria realmente possível?
- É tudo o que desejo!
- É claro que haverá um preço, este ao qual pago também. Serás sempre bela e jovem enquanto estiver disposta a tomar estes atributos, e caso não o faça definhará e ao pó voltará.
Johanna abriu os braços e nada precisou dizer para que a misteriosa dama visse que ela havia aceitado e se entregado. Emma esticou a mão e na testa de Johanna tocou, seus olhos escureceram e uma escuridão envolveram-nas.
“Devo partir, mas em teus sonhos aprenderá”. Ecoou na sala, mas quando Johanna conseguiu novamente enxergar estava sozinha. Cambaleou direto para sua cama e adormeceu.
Acordou no meio da noite e nada havia sonhado. Sentou-se na cama, esfregou os olhos e enfim observou que Castiel não estava lá. Ouviu o barulho de gotas de água a pingar e percebeu algo escorrer do teto direto em uma pequena tigela no canto que servia de lavatório. Aproximou-se para olhar melhor, mas o que viu não foi o que esperava. Viu uma face demoníaca refletida na água. O ser então falou:
- Parece que tenho que uma nova alma. – A criatura sorriu – Direi como ser sempre bela através de minha graça. No cair da escuridão, quando adormecer, será capaz de viajar entre os sonhos e, assim, almas inocentes deverá me entregar. Irá encontrar um punhal ao lado da porta, apenas use-o.
Johanna não pôde responder, sentiu algo a puxando para fora dali. Quando viu, estivera dormindo e só agora realmente acordara. Pensou que tudo não passara de fantasia, mas quando olhou para próximo da porta avistou um singular punhal. Sentiu o coração pesar e a alma escurecer.