sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Trapaças

O céu estava claro, em um límpido e belo azul. Dante cortava as nuvens com enorme velocidade enquanto voava em Kitar, seu sombrio dragão de ossos.
Resolveu descer entre as árvores para matar a sede quando avistou um lago cristalino ao redor de um enorme carvalho. Mesmo em uma floresta que nunca havia visitado antes, não temia seus perigos ao lado de Kitar.
Sem nem observar a floresta que o rodeava foi direto ao lago, beber. Ouviu um cântico desafinado vindo por trás e ao virar-se assustou-se com diversas cabeças penduradas no carvalho, porém ainda estavam vivas e entoavam canções estúpidas.
- Não é um mago, mas tem um dragão, o viking imbecil vai ficar feliz! - Entoou a cabeça de um velho de barba longa e grisalha.
- Espero que seja gentil, não precisamos de mais uma cabeça mal humorada! - Respondeu em dueto a cabeça de um jovem de cabelos encaracolados.
Surgiu ao fundo uma outra voz, esta não cantarolava.                   
- Nem depois de morrer esses magos calam a boca! O que é dessa vez?
Apareceu entre as árvores um homem jovem e musculoso, com cabelos e barba compridos da "cor de barata", como ele mesmo dizia. Vestia roupas de pelo e um elmo com chifres, carregando nas mãos uma longa lança, que mais parecia um machado, chamado "lanchadão".
- Ai, meus deuses! Chegou o bruto, mata logo sem muito sangue! Quer conselho? Quer nos libertar? - Dizia uma das cabeças, assustada e inquieta.
- Fica quieto mago estúpido! Assim não consigo pensar! - Gritou o viking.
O bárbaro olhou Dante dos pés à cabeça, examinou suas armas, suas vestes e finalmente seu dragão.
- Esse panaca não é mago! Não me serve nem a cabeça! Mas eu gostei do dragão. Legal... Pode ir embora, vou ficar com ele.
- O que? Não pode sair furtando meus bens! - Gritou Dante assustado com a ousadia.
- Meu senhor, o termo "bárbaro" significa alguma coisa para você? Pois é! Significa que eu posso fazer o que bem entender! - Zombou o viking.
- Era só o que me faltava! - Dante revirou os olhos - Kitar solta logo uma baforada nesse...
- Nem adianta que minhas cabeças bloquearam o fogo do dragão - Dante foi interrompido pelo viking.
- Não somos suas cabeças, seu animal! - Gritaram as cabeças penduradas.
- São sim, cabeças estúpidas! Agora calem a boca! - Irritou-se.
Dante tentou aproveitar a situação desengonçada para pular em Kitar e fugir até sua casa, mas o bárbaro era muito ágil e deu-lhe um soco no peito no momento em que ele pulou. Dante desabou no chão e ficou gemendo de dor. O viking se abaixou e lhe dirigiu a palavra:
- Desgraçado! Não vai fugir não! Mas vejo que gosta muito do dragão, poderei ser flexível no nosso acordo.
- Acordo? E eu lá tenho escolha? - Murmurou Dante.
- Seguinte, ou me dá o dragão ou me leva até um mago longe daqui, pois os daqui já matei todos! - Riu o viking com a mão na barriga.
- Eu te levo! Eu te levo! - Choramingou Dante.
Ambos montaram no dragão de ossos e voaram rumo à floresta gelada. Dante os guiavam por horas, fazendo breves intervalos para comer algumas frutas ou beber nos lagos.
Chegaram até a gruta da qual Dante morava e deixaram Kitar por lá, o resto do caminho seria mais adequado ir andando. Subiram ao norte extremo da floresta até que Dante apontou uma escondida cabana entre as folhas.
- Que Erin me perdoe, é a única maga que conheço. Creio que ela saberá se defender - Sussurrou Dante para si mesmo.
- Magos covardes! Lutam à distância e ainda vivem escondidos! - Riu bem alto - Fique aí até eu matar o mago, não vá embora até eu ter minha cabeça.
O robusto homem prendeu a lança nas costas e desembainhou uma espada ao observar o baixo teto da cabana. Avançou em seguida, derrubando a bela porta de madeira, fazendo um grande barulho. Um grito feminino e surpreso surgiu vindo do cômodo ao lado. Empolgado e enfurecido, o homem correu até alcançar o local de onde tinha vindo o grito. A maga se levantava da banheira e enfeitiçava suas túnicas para que rapidamente a cobrisse. Ainda antes que pudesse se vestir o bárbaro ficou imóvel e observou seu corpo nu, repleto de marcas e desenhos nos braços, descendo até sua virilha. Mesmo não tendo conhecimentos sobre magia, ele sabia que aquilo eram marcas de uma maldição da qual poucos carregavam desde seu nascimento, seu efeito agia sobre sua mente, como se ao longo dos anos sua alegria fosse sugada pelas marcas até se parecer um zumbi, uma vida sem valor algum. Mesmo assim a cabeça da maga ainda lhe era valiosa.
Avançou determinado, pois algo lhe dizia que aquela feiticeira lhe guardava muito conhecimento.
- Uma mulher! Vai ser a primeira cabeça feminina em meu carvalho. Não deve fazer diferença, magos são todos covardes, todos atacando de longe! - Gritou o homem.
- Covardes? Estudar anos um mero feitiço é covardia? Mas se deseja um combate corpo-a-corpo lhe darei um! Irá fracassar do mesmo modo! - Gritou Erin em resposta.
- Não seja tola, maga! Vai lutar com um cajado de madeira? - Zombou ele.
Erin esticou as mãos e as juntou depois, conjurando uma poderosa espada flamejante, mas ainda era muito fraca comparada ao bárbaro. Retirou um frasco de seu saco aveludado e o tomou, ganhando grande força. Finalmente fez com que uma fumaça envolvesse ambos, os levando para fora da casa.
Dante continuou lá, tremendo no canto. Seus olhos estavam arregalados, torcendo por Erin em segredo.
O viking correu em direção à maga lhe dilacerando um golpe por cima, foi bloqueado pela espada de Erin que o chutou em seguida para longe. Ele cambaleou sem cair e rapidamente avançou mais uma vez, travando o início de uma árdua batalha.
- Dante, traidor! Como pôde trazê-lo em minha floresta para me matar? - Erin gritava a Dante sem desconcentrar-se da batalha - Irá ao inferno junto com ele!
- Foi por Kitar! Sabia que venceria a batalha! - Gritou Dante em resposta.
O tilintar das espadas não tinha fim, já estavam a bastante tempo lutando. Tantos golpes dados e desviados, tantas revira-voltas, tanto tempo perdido. Ambos já ofegavam, mas ninguém ousava desistir.
Já basta! - Gritou Erin enraivecida.
Erin esticou uma das mãos tão rápido que somente ela pôde ver. Uma enorme rajada de vento foi lançada de seus dedos jogando a espada do bárbaro para longe. No momento em que ele foi desarmado ela o derrubou e,sobre seu pescoço, deixou a espada.
- Trapaceira! Maldita raça a sua! - Gritou o viking enraivecido.
- Trapaceira? Em momento algum me distanciei para lutar, era fácil me impedir de lançar tal feitiço! - Erin sorriu sarcasticamente - É um bom guerreiro, pouparei sua vida, mas se o avistar novamente em minhas terras não terei piedade.
- Tem razão. Usou seus poderes com sabedoria e honra, sem covardia alguma diferente de todos aqueles que matei - Dizia o bárbaro calmamente - Seria grato se me aconselhasse quando eu precisar, ficaria honrado em ter sua amizade. Não a trairei, dou-lhe minha palavra.
- Está certo então. Uma coisa que jamais poderei fazer é desconfiar da promessa de um viking, ainda mais depois do que descobriu sobre mim neste dia - Disse Erin cabisbaixa - Mas agora parta, preciso descansar.
- Como assim? Tanta raiva acabou em amizade? Não compreendo! - Falou Dante confuso.
- Cala a boca, trouxão! Já vi que traiu a moça, ela era sua amiga e ainda assim me trouxe a ela. Peça desculpas ou levo é a sua cabeça! - Falava o bárbaro enquanto pegava Dante pela nuca e jogava de joelhos perante Erin.
- Desculpa! Desculpa, Erin! Não me matem, por favor! - Choramingava Dante.
Erin gargalhou e levantou Dante, o empurrando para ir embora.
- Então Erin é seu nome? Me chamo Turmíon - Disse o bárbaro.
- Certo. Agora deixe-me ir.
Erin reverenciou Turmíon e sumiu cabana adentro.
Antes que Dante descansasse em sua casa teve de levar Turmíon até o carvalho em seu dragão, pois queria manter sua cabeça onde estava.
O bárbaro desceu do dragão no mesmo lugar que havia saído, logo as diversas cabeças decepadas começaram suas canções desafinadas.
- Nenhum dragão, nenhuma cabeça! É sinal de liberdade! O homem do dragão de ossos nos salvou! Viva!

- Não! Calem a boca! - Disse Turmíon antes que sumisse entre as árvores.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Dragão de Ossos

Às vezes a vida na floresta era muito monótona e a visita na cidade poderia ser bem divertida. Dante gostava de ir em bares, teatros e na praça central. Quando precisava de moedas, coletava algumas matérias primas e vendia para o mercado geral. Muitas das vezes passava uma noite ou outra em hospedarias, mas dessa vez queria voltar até sua residência, pois os poucos minérios que coletara não seriam suficientes para uma boa hospedaria.
Era um dia tempestuoso, deveria voltar com cuidado. Havia uma densa neblina em seu caminho. Estava mais frio do que nunca. Era uma estrada silenciosa, exceto pelo barulho da chuva e dos trovões que cortavam os céus algumas vezes.
Assustou-se quando se deparou com um cadáver em sua estrada, pois era muito raro alguém vagar por estas florestas. Estava caído sobre vários cogumelos que formava um círculo, um anel das fadas.
Inspecionou o corpo pálido e feminino, encontrando um estranho colar com símbolos dragônicos. Encantado com a beleza do amuleto o colocou no pescoço.
Uma fumaça azul subiu da boca do cadáver formando o espírito da linda jovem que estava falecida no chão. Era loira de cabelos curtos e enormes seios.
Ela gritou com ira para que Dante soltasse o colar. Ele a obedeceu, assustado, pois ela aparentava ter grande força e poder. Colocou o colar no lugar que estava e voltou a andar, esperando que o fantasma não quisesse sua presença ali, mas ao contrário do que imaginava, ela falou para que Dante esperasse.
- Não pode ir, ao colocar este colar sem minha permissão foi amaldiçoado, agora tem uma missão a cumprir. O curso do seu destino foi alterado - Jogou um pergaminho na direção de Dante e entregou-lhe novamente o colar - Caso não cumpra o pergaminho em seis dias, sua alma se juntará à minha.
Após proferir essas palavras o espírito transformou-se em névoa e dirigiu-se novamente para a boca do cadáver.
Dante por alguns instantes balançou a morta, tentou se comunicar com a dama fantasmagórica, abandonar a tarefa, mas sua tentativa foi em vão. Voltou para casa então, angustiado. Largou o pergaminho ao canto e adormeceu, o examinaria detalhadamente pela manhã.
O sol lançou seus primeiros raios de luz despertando Dante. Assim que levantou abriu o pergaminho e iniciou sua leitura. Haviam seis tarefas a serem cumpridas e Dante resolveu acreditar naquela maldição, pois seu temor era grande.
O pergaminho era encantado e as missões só apareciam conforme as anteriores fossem realizadas. Sendo assim, Dante deveria completar a primeira, seguindo precisamente as instruções. Aparentava ser bem simples, o mandava apenas encontrar algumas ervas, flores e materiais orgânicos.
Pegou um livro falando sobre a flora local, mas encontrou apenas uma flor e uma erva da qual precisava. Foi logo as coletar antes que acabasse de pesquisar sobre as outras.
Subiu a maior colina daquela gélida floresta em busca de uma rosa prateada. Não teve grande dificuldade devido à sua robusta estrutura. Um único feixe de luz iluminava um pequeno campo repleto de flores. Coletou apenas uma, retirando-a pela raiz e a ponto em um saco de coleta.
Após remover a flor, desceu as colinas até o centro da floresta, tomando cuidado para não encontrar nenhum animal agressivo. Bem destacado ao meio, encontrou um arbusto avermelhado e caloroso de ervas do verão. Removeu cuidadosamente algumas folhas e guardou.
Para encontrar o resto do que o pergaminho pedia precisava de conhecimentos em herbologia, mas como não tinha tal conhecimento, decidiu visitar uma próxima cabana habitada por uma bruxa. Foi ao norte da floresta até avistar uma cabana escondida, coberta por musgos e flores. Foi recebido pelo belo lobo, Asgar, que o lambeu e uivou para alertar sua dona, Erin, da chegada de Dante.
Erin apareceu sorridente e perguntou amigavelmente o que Dante desejava. Ele entregou-lhe o pergaminho para que o informasse onde encontrar cada item. Enquanto lia, ela retirou uma varinha de seu saco aveludado e a utilizou para escrever a localização dos itens. Antes que Dante partisse, ela entregou-lhe uma esfera cristalina que o teleportava até um druida. Lá ele poderia comprar esferas que o direcionavam para o local dos arbustos de ervas, pois não seria possível rodar o mundo em apenas seis dias.
Quebrou sua esfera e surgiu diante de um imenso teixo, em uma floresta quente e serena. Estava distante de seu lar. Havia uma casa sobre a árvore e Dante subiu até lá por um maquinário de madeira e cordas. Lá havia um velho de barba longa e grisalha e com túnicas verdes, túnicas de druidas. Ofereceu-lhe ouro em troca de três esferas de diferentes tons e assim o druida realizou a troca.
A primeira esfera o levou à uma floresta morta e escura, destruída por um vulcão. O local era rodeado por estranhos arbustos de fogo, eram ervas dragônicas. Com sua adaga, arrancou algumas folhas sem tocar e ao caírem no chão, suas chamas se apagaram, então Dante as pegou.
Observando as anotações de Erin viu que deveria subir uma montanha próxima ao vulcão e entrar na segunda caverna, onde era habitada por fênix. Seus ninhos eram repletos de cinzas. Deveria coletar um punhado tomando cuidado para não parecer uma ameaça à dona do ninho. Assim foi feito.
Quebrou a segunda esfera e surgiu em um lamacento pântano. Buscou por um arbusto amarronzado com as raízes vermelhas e brilhantes e coletou. Seguindo novamente às instruções de Erin, desceu ao sudoeste até encontrar um cemitério. Lá começou a ouvir um incômodo barulho do qual deveria seguir até chegar em uma horrenda flor que emitia tal ruído perturbador. Após coletar a raiz do fogo e a dama infernal, ainda faltava procurar salamandras naquele local para arrancar sua língua. Buscou até o crepúsculo quando finalmente avistou uma e lhe dilacerou um golpe de espada.
Quebrando a última esfera, de tom rosado, viajou até uma luminosa e encantada floresta, rodeado por fadas e místicas árvores. Graciosas fadas lhe deram as boas vindas com uma coroa de flores. Dante mostrou-lhes o pergaminho e gentilmente as fadas o guiaram à um arbusto de pó púrpuro. Eram ervas transparentes que soltavam pós brilhantes e belos. Após a coleta ele foi novamente guiado pelas fadas a um campo de lótus vermelhos. Dante removeu a flor pela raiz que mudou de cor ao entrar em contato com sua mão, refletindo seu humor. As fadas se despediram amigavelmente e o jogaram um feitiço que o levou para casa.
Dante observou o pergaminho e viu a segunda tarefa aparecendo. Deveria utilizar os materiais coletados para fazer poções, mas ninguém poderia o ajudar.
Ele seguia as instruções lentamente. Colocou as pétalas da rosa prateada e do lótus vermelho em água fervente por alguns minutos, despejando o líquido em um frasco após o tempo necessário. Usou um pilão para moer as folhas de pó púrpuro e juntou com a água. Em seguida jogou as cinzas de fênix e finalizou a primeira poção. Fez o mesmo com as ervas e flores restantes. Nenhuma função ainda havia sido atribuída à língua de salamandra.
Finalizando as poções, a terceira tarefa foi revelada. Deveria esperar até a meia noite para cumprí-la.
Pouco antes da meia noite, Dante saiu em encontro ao anel das fadas. O corpo da jovem continuava caído por lá. Cuidadosamente, Dante o removeu do centro do círculo e sentou-se em seu lugar. Observava atento ao céu esperando a meia noite, para que a luz a lua ficasse exatamente em seu rosto.
Assim que sentiu-se energizado pela lua pegou um dos frascos de seu bolso, a poção do encantamento das fadas, e contornou os cogumelos que formavam o círculo. Enquanto isso, entoava uma canção em alguma língua desconhecida.
Os cogumelos começaram a emergir em uma luz púrpura e uma linda fadinha surgiu dançando. Pós brilhantes e dourados soltavam de suas asas e encantavam os cogumelos, até finalmente pararem de se iluminar e a fada sumir. O anel havia se transformado em um portal.
Dante já se levantava quando repentinamente evaporou de sua dimensão, aparecendo em uma escura caverna iluminada apenas por misteriosas luzes avermelhadas que flutuavam pelo local. Afastou-se do outro anel das fadas que havia sido levado e avistou um colossal dragão o encarando com ira. Percebendo que estava prestes a levar uma baforada de fogo, pulou novamente no círculo de cogumelos, voltando para a floresta gelada antes que fosse atingido pelo fogo do dragão.
Ao voltar para casa observou a próxima tarefa surgindo, mas esta ficaria para ser realizada pela manhã, agora deveria descansar.
O sol já havia se posto há horas e Dante ainda dormia, acabou por acordar tarde, atrasando um pouco sua missão, mas assim que pôde a retomou.
A quarta tarefa era simples, bastava mergulhar o amuleto de dragão na segunda poção e em seguida amarrar nele a língua de salamandra. A única parte complicada era recitar complexas palavras em tons perfeitos, mas Dante treinara por algumas horas antes.
O pergaminho revelou a quinta tarefa e para realizá-la Dante precisava reencontrar o espírito que jazia na floresta. Ao chegar mais uma vez ao círculo, ele balançou o cadáver tentando encontrar seu espírito, mas nada aconteceu. Até que foi surpreendido quando a garota apareceu por trás o assustando e rindo. Dante se irritou, mas logo fizeram as pazes e retomaram o caminho.
Posicionaram-se no centro do anel. Dante foi alertado para colocar o amuleto de dragão antes que o portal fosse ativado.
O círculo de cogumelos soltou um pó luminoso que os levaram para a misteriosa caverna. Aquele mesmo dragão de ferro encarou Dante preparando-se novamente para lhe dar uma baforada, mas antes que soltasse seu fogo o espírito pegou o colar de Dante e o levantou, mostrando ao dragão, que se curvou e concedeu-lhe a passagem.
A alma da garota conduziu Dante até o centro da caverna. Lá havia um sombrio trono e quatro estátuas desorganizadas, cada uma com uma espécie de dragão.
O espírito ordenou que Dante organizasse as estátuas em volta do trono. Dragão azul ao sudeste, vermelho ao nordeste, marrom ao sudoeste e branco ao noroeste. Dante realizou a tarefa com muito esforço, pois as estátuas eram pesadas.
A garota sumiu e a última tarefa começou a surgir. Dante voltou à floresta e carregou o cadáver em suas costas até o trono, o colocando lá. Se afastou do círculo formado pelas estátuas e pegou o pergaminho para recitá-lo.
Enquanto recitava, as estátuas emitiam um som que atraiam diversos dragões dourados. Eles lançavam seu fogo nas estátuas. Um pentagrama surgia no chão e energizava o trono, que ficava na ponta do norte.
Quando a caverna silenciou-se, Dante olhou apavorado o cadáver levantar-se do trono e andar em sua direção. Todos os dragões curvaram-se diante da bela mulher.
- Agradeço Dante, tu me libertastes. Agora irei lhe explicar o ocorrido - Disse a jovem a Dante - Sou Aria, rainha dos dragões. Não sigo nenhum deus, mesmo que alguns não se conformem com isto. Exatamente por esse motivo os deuses amaldiçoaram o portal para cá e quando fui usá-lo minha vida foi tirada de mim, mas agora poderei me vingar! Devolva meu colar, não lhe será mais útil.
Dante removeu o amuleto do pescoço e entregou a rainha dragônica. Ao colocá-lo um fogo a dominou, formando-lhe uma coroa de chamas.
- Como recompensa lhe darei o dragão que desejar. Escolha! - A rainha abriu os braços enquanto dizia.
Dante observou à sua volta. De tantas espécies teve grande interesse em um grande dragão de ossos. A rainha chamou o escolhido. Os olhos de Dante brilharam juntamente com os do dragão. Assim, ambos partiram de volta à floresta.


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Mito Bororo: A origem dos porcos do mato

Todos os dias os homens iam pescar e voltavam de mãos vazias. Chegavam à aldeia tristes, não só porque voltavam sem peixes, mas porque as mulheres faziam cara feia e os recebiam de modo grosseiro. Chegaram mesmo a desafiar os maridos.
As mulheres anunciaram que iriam elas mesmo pescar, mas, na verdade, elas apenas chamavam as ariranhas, que mergulhavam e pescavam para elas. As mulheres voltavam carregadas de peixes, e sempre que os homens tentavam uma desforra, não conseguiam nada.
Passado um certo tempo, os homens começaram a desconfiar. Mandaram um pássaro espionar as mulheres, e eles lhes contou tudo. No dia seguinte, os homens foram ao rio, chamaram as ariranhas e as estrangularam todas, exceto uma que escapou.
Agora eram os homens que brigavam com as mulheres, que não pescavam mais nada. Por isso, elas resolveram se vingar. Ofereceram aos homens uma bebida feita de pequi, mas não haviam retirado os espinhos que envolvem o caroço. Os homens ficaram sufocados com os espinhos, que ficaram atravessados na garganta, os fazendo grunhir. Transformaram-se, assim, em porcos do mato.

Mito retirado de "O cru e o cozido, de Claude Lévi-Strauss, 1964".

"Índio Bororo", por Hercules Florence (1825-1829)
* Os Bororos são um povo indígena do tronco linguístico macro-jê. Habitam a região central do estado do Mato Grosso.



quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Pés do Amor

Montanhas embelezavam o cenário, juntamente com as mais verde árvores e um límpido e cristalino lago. Uma imensa ponte de pedra separava o reino de Isabela ao reino do sul. Dante a atravessava no momento, parando por um instante e descendo de seu cavalo para lavar o rosto. Ao virar-se para continuar sua jornada teve a surpresa de encontrar um duende com os pés em seus sacos de ouro. Irritado, tentou espantá-lo:
- O que está fazendo, duende? Tire já os pés do meu ouro!
- Oxi, doido! Estou com frio! - Falou com a voz rouca.
- Então se aqueça em outro lugar, pois já vou partir!
O duende saiu de dentro do saco com o olhar torto e resmungando. Voltou, em seguida, para as pedras debaixo do início da ponte.
Prosseguindo sua jornada até a linda princesa, que reivindicara o melhor dos aventureiros para se casar, Dante ignorou o fato desagradável que acontecera na ponte. Ansioso para encontrar sua futura esposa, pois ele sabia que era um grande herói, amarrou novamente os sacos em seu cavalo e cavalgou rapidamente até o castelo.
Diante dos imensos portões de ferro um guarda cobrava a taxa para os aventureiros que desejavam se apresentar. Dante entregou-lhe o saco de ouro e adentrou o castelo antes mesmo que fosse verificada a quantidade exigida. Correu para o grande salão, pois estava atrasado. Perante o rei, um dos guardas o alcançou e lhe impediu de se apresentar.
- Mas o que está acontecendo? - Bravejou o rei.
- Perdoe-me, vossa majestade, invés de ouro nos entregou fungos.
- O que? Lhe entreguei ouro! - Surpreendeu-se Dante.
O guarda jogou uma sacola em direção a Dante, a mesma que ele havia entregado. Quando foi aberta ele viu que realmente só haviam fungos.
- Não é possível! Alguém deve ter trocado o ouro!
- Garanto que não aqui, chequei logo após a sua entrada. Venha comigo por favor.
Dante foi expulso do castelo e frustrado encaminhou-se para a taberna. Enquanto bebia abriu a pequena sacola e jogou seu conteúdo em cima do balcão. Haviam fungos, apenas fungos.
Um jovem homem, um tanto eufórico, se aproximou. Cambaleando sentou-se ao lado de Dante e logo puxou assunto.
- Nunca vi destes cogumelos, por acaso estão a venda? - Balbuciou o homem.
- Deveria ser ouro, mas não é! Não mais. Pode ficar. - Bravejou Dante enquanto socava o balcão.
- Ouro? Quando pequeno minha mãe me contava histórias sobre duendes que transformavam metais em flores e fungos. - O homem arqueou a sobrancelha e aproximou o roste a Dante – Por acaso não encontrou um, não é?
- Como disse?
Antes que pudesse responder a homem desmaiou em cima de Dante, que empurrou sua cabeça para cima do balcão.
- Bêbado! Ótimo! - Ironizou Dante.
Retirava-se da taberna, sozinho, quando uma grande e feia mulher gritou rudemente para que levasse o jovem junto.
- Já estou fechando e não vou cuidar de bêbado!
Dante carregou o jovem em seus ombros até uma hospedaria, como se já não tivesse perdido ouro o suficiente, ainda teve de pagar um quarto extra para o bêbado.
No dia seguinte, Dante ainda não partira. Ao caminhar pelo reino ouviu boatos de que um dos candidatos transmitira uma doença à princesa e apenas uma rara flor a curaria. Todos os guardas, em nome do rei, buscavam tal flor, sem sucesso.
Voltando para a hospedaria deparou-se, finalmente, com o homem que ajudara acordado. Ele questionou o ocorrido, recordando-se vagamente de Dante. Após explicar-lhe, fazendo com que sua memória voltasse parcialmente, Dante cobrou o ouro gasto em hospedagem de volta.
- Claro, fico grato por não ter me jogado na rua. Tenho uma venda, venha comigo até lá pegar seu ouro. - Respondeu o homem – Afinal, me chamo Nate.
Em meio ao caminho, novamente o assunto sobre a doença da princesa era muito comentado, inclusive pelos guardas reais. Ouvindo a história da flor rara, Nate gritou inconsequentemente:
- Rara? Meu amigo conhece um duende que pode transformar essa flor! - Zombou.
Dante tentou intervir em vão. Quando notou já estava sendo carregado a força até o rei.
- Vossa majestade, encontramos alguém que diz saber como materializar a flor.
- Já procuramos um mago experiente, ele disse que não poderia materializá-la por ser tão rara.
- Meu senhor, este não é mago.
- Não? Então como pode materializá-la?
- Segundo seu companheiro, através de um duende.
- Não compreendo, mas não me restam muitas opções. Traga esse duende até mim! - Ordenou o rei.
- E se eu não o trouxer? - Gritou Dante.
- Então o decapitarei! - Bravejou o rei.
- Mas eu não o conheço, só o vi uma vez! - Choramingou.
- Não me interessa, traga-o para mim!
Dante voltou até a ponte e procurou o tal duende. Ele estava dormindo debaixo da ponte e foi levado até o rei assim mesmo, cochilando. Quando finalmente acordou no castelo, assombrou-se com o lugar desconhecido e logo começou a tagarelar.
O rei se aproximou e tentou acalmá-lo.
- Soube que pode transformar ouro em flores e fungos. Desejo obter uma rara flor que irá curar minha filha. O que precisa para a transformação?
- Oxi, não farei nada!
- Se não o fizer morrerá, você e Dante!
- Que doido! Vou dormir para sempre! - Gritou o duende.
Dante ao ver a expressão de ira que o rei fez desesperou-se e pediu para tentar convencer o duende.
- Transforme, por favor! - Choramingou Dante.
- Não. Vou é dormir, doido!
- Eu não quero morrer, por favor! Trago o que você quiser!
- Qualquer coisa? Quero uma marreta, doido!
Dante foi até o rei e contou-lhe a condição imposta pelo duende. Ele separou todas as marretas dos guardas e pediu que o duende escolhesse uma. Assim foi feito.
- Agora você vai transformar?
- Eu não disse isso! - Cantarolou.
- Mas já tem a marreta!
- Tudo bem. Depois da minha soneca então.
- Mas acabou de acordar...
Antes que Dante terminasse de falar o duende caiu no sono, acordando somente horas depois.
A flor necessária para a cura chamava-se rosa triste. Ninguém sabia onde encontrá-la, mas conheciam a sua aparência, com exceção do duende, que não conhecia nenhuma planta pelo nome comum. Ele mesmo costumava nomear.
- É uma flor com muitas pétalas azuis. - O rei descreveu a planta.
- Ouro é só para fungos, tragam-me prata.
Encheram um balde com prata até a metade e colocaram diante dos pés do duende. Ele afundou seus pés na prata e esperou que cada pepita se tornasse uma linda flor, porém amarelada. O rei resmungou e bateu levemente no duende.
- Eu nunca transformei essa flor! Todos só carregam ouro e eu esquento meus pésinhos lá! Não seja cruel com Pés do Amor.
- Pés do Amor? Que diabo de nome é esse?
- Duendes nomeiam seus filhos de acordo com seus talentos. Meus pés valem um grande dote! Mas não quero casar, não quero dividir minha ponte! - Bravejou – Já que não funcionou com prata, tragam-me outro metal.
Os servos trouxeram outro balde, este cheio de bronze. Novamente aqueles pés se afundaram no metal e todos esperaram que a transformação ocorresse. Flores brancas e muito belas surgiram e logo o rei pôs-se a reclamar.
Outro balde foi trago cheio de cobre. Foi transformado dessa vez em cactos e rapidamente o duende tirou os pés, que se feriram. A partir de então, recusou-se a continuar suas tentativas. O rei ficou em prantos, desesperado, implorava por mais tentativas. Mostrou a Pés do Amor uma pintura de sua amada filha.
- É a mais linda que já vi, mas machuca meus pezinhos! - Falava enquanto balançava os pés.
- Você acha? Se curá-la pode se casar com ela! - Propôs o rei em desespero.
- É por isso que dizem que o amor dói? - O duende esfregava seus pés – Me leve até ela?
O rei, em lágrimas, fez um sinal aos servos para que o acompanhassem até o quarto onde a princesa dormia.
Diante dos enormes olhos castanhos do duende surgiu uma bela dama de longos cabelos ruivos e olhos verdes. Ela acordou assustada e tossindo ao ver tanta gente em seu aposento.
Pés do Amor correu em sua direção e segurou sua mão. Lhe falando em seguida:
- Tão bela! O que sente, princesa?
A princesa puxou a mão e a guardou entre os lençóis. Olhou em seguida para os servos esperando uma explicação.
- Ele veio te curar, princesa.
- Como? Ele encontrou a flor? - Um breve sorriso surgiu em seu pálido rosto – Bem que Ez me disse através de sonhos naquelas minas de carvão.
O duende arregalou os olhos e perguntou para os servos se poderiam tentar a transformação com carvão. Assim foi feito.
A transformação havia sido bem sucedida e logo o rei planejou os preparativos para o casamento.
Dante teve seu pescoço salvo pelo sonho da princesa e os pés de um duende.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Saga Cosplay - Sono

A seguinte história é a primeira da saga cosplay, isto é, desenvolvida para gerar um conceito por detrás dos meus cosplays autorais. Estes cosplays podem ser vistos no meu instagram ou facebook, sendo que alguns deles são inspirados em algo já existente, mas outros foram totalmente inventados.
Este conto fala da minha personificação do sono, sendo da categoria de inventados. Foi divido em mais de uma parte, com a finalidade de introduzir outro cosplay na mesma história (ao qual não será revelado ainda, mas aqueles que conhecem meus cosplays talvez adivinhem!). Espero que apreciem a história e minha caracterização!

Acordara com o som da chuva batendo no vitral da janela. Havia demorado para perceber que aquele barulho pertencia à tempestade, pois nunca vira ou ouvira uma chuva tão forte e nos sonhos àquela sonoridade era diferente, soava mais alegre.
Nunca tivera um sonho triste, vivia em um mundo colorido, com belos seres a dançar ao seu redor. Os cabelos de um loiro dourado brilhavam ao sol e suas roupas eram finos véus que facilmente esvoaçavam ao vento fresco. Quando a noite chegava não era assustador, as estrelas e a lua brilhava tão intensamente que jamais havia escuridão plena. Também não havia sono, apenas energia, banquetes saborosos, brincadeiras e prosperidade.
Porém Sono não se enganava, sabia o que representava ao mundo. Todas àquelas belas imagens, por mais reais que parecessem, não passavam do cumprimento de sua personificação e dever. Sua verdadeira vida se passava em um belíssimo palácio que flutuava entre as nuvens, construído do marfim encantado que o deixava mais leve do que uma pena, assim como tudo o que estava dentro dele. Seu corpo adormecia em um salão de cristal desde seu nascimento, regendo o sono de todos os seres que se encontravam abaixo de si. Não era uma deusa, mas tinha a importância de uma, aliás, o que seria da humanidade sem o rotineiro adormecer?
Nunca abrira os olhos antes, nascera em profundo sono e assim permanecera até pouco antes deste momento. Percebeu que de todo o seu corpo, apenas a cor dos amendoados olhos castanhos não era esbranquiçada como a neve, conseguira ver-se de verdade pela primeira vez, refletida no límpido cristal ao qual o paço se constituía. Seus cabelos não eram dourados como sonhara, mas brancos, tão brancos como de uma velha. Sua pele também não era rosada, mas pálida, tão pálida como se estivesse morta. Seu toque, no entanto, era cálido e confortante.
Caminhou para a sala seguinte e encontrou borboletas peroladas voando suavemente sobre um jardim de rosas brancas, com folhas brancas e árvores igualmente brancas. A maior das borboletas pousou sobre seu ombro nu e Sono sentiu como se ela pudesse falar.
“Minha senhora, consegues caminhar e estás acordada? Isso é terrível! A loucura tomará conta dos seres abaixo se em vigília permanecer, pois não mais adormecer conseguirão!”
- Mas não sei o que me aconteceu, fui roubada, meu sono foi roubado! Devemos recuperá-lo já.
“Oh, minha senhora! Que horrível ocasião! Talvez devêssemos procurar pela Vigília, pois está sempre acordada e a tudo pode ver. Certamente nos ajudará, pois compreende sua importância, da mesma maneira que trazes o descansar, a senhora Vigília traz o despertar.”
- Então vamos busca-la imediatamente! – Disse Sono com toda a animação que conseguiu expressar, mas mesmo acordada ainda não perpassava muita energia.
“Vamos, minha senhora, mas espere um momento que buscarei algo para cobrir-se e arrumarei este cabelo desgrenhado. Não deve andar nua, evitemos o olhar de certos senhores.”
As borboletas voaram em conjunto deixando Sono sozinha por um instante. Voltaram minutos depois com uma camisola longa de algodão e a vestiram sobre a cabeça de sua senhora. Pentearam e trançaram em seguida seus longos cabelos.
Sono caminhou delicadamente para fora de seu palácio e lá encontrou uma carruagem de nuvens, puxada por cavalos que pareciam feitos de fumaça. Entrou apressada, acompanhada da Grande Borboleta, e logo partiu para o leste, em direção ao sol nascente. Seus cavalos, Adormecer, Sonolência, Devaneio e Serenidade, cavalgaram pelos céus por um longo tempo. Quando a luz do sol brilhou intensamente em sua vista, Sono avistou o palácio reluzente de ouro.
Sono e a Grande Borboleta desceram diante do colossal portão luminoso. Chamaram por Vigília, mas ela não veio. Chamaram-na novamente, mas em seu lugar veio uma bela águia de penas e olhos dourados.
“Minha senhora Sono, não alegra-me vê-la, pois não deveria estar desperta. Sua presença, no entanto, é esperada, pois minha senhora Vigília enlouqueceu completamente! Se estás de pé diante deste portão é somente porque seu sono fora roubado por àquela que aqui governa.”
- Vigília roubou meu sono? Não compreendo.
“Sim, minha senhora. A ouvia reclamando dia e noite de não poder nunca adormecer, dizia não aguentar mais ver tantos horrores acometidos pelos homens. Sei também que sentia-se em parte culpada, pois os horrores somente podem ser acometidos por aqueles despertos, nunca pelos que dormem.
Certa noite recebeu a visita de uma bruxa perversa e dela comprou uma poção capaz de roubar o sono de qualquer um que escolhesse. Guardou-a, estava relutante em usá-la e cheguei a pensar que nunca o faria até o dia de hoje. Quis buscar ajuda, mas somente posso sair deste palácio junto à minha senhora, como bem sabe sobre nós guardiões.”
- Mas se estou acordada e Vigília dorme, o que será dos seres abaixo de nós?
“Isto ninguém sabe, senhora. As leis que regem nosso mundo estão inversas, penso que ficarão acordados em seus próprios sonhos, mas sem alimentar os corpos logo morrerão.”
- É terrível! Precisamos acordá-la já!
“Eu tentei, senhora, não sabe o quanto tentei, mas nada funciona. Peço que busque a Perversa, somente aquela bruxa traiçoeira pode reverter a poção.”
Sono relutou por um instante, mas concordou em nome de seu dever com os seres que habitavam o mundo. Montou em sua carruagem e partiu, descendo dos céus até não mais avistar nuvens.

Continua...