segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Mito Bororo: A origem dos porcos do mato

Todos os dias os homens iam pescar e voltavam de mãos vazias. Chegavam à aldeia tristes, não só porque voltavam sem peixes, mas porque as mulheres faziam cara feia e os recebiam de modo grosseiro. Chegaram mesmo a desafiar os maridos.
As mulheres anunciaram que iriam elas mesmo pescar, mas, na verdade, elas apenas chamavam as ariranhas, que mergulhavam e pescavam para elas. As mulheres voltavam carregadas de peixes, e sempre que os homens tentavam uma desforra, não conseguiam nada.
Passado um certo tempo, os homens começaram a desconfiar. Mandaram um pássaro espionar as mulheres, e eles lhes contou tudo. No dia seguinte, os homens foram ao rio, chamaram as ariranhas e as estrangularam todas, exceto uma que escapou.
Agora eram os homens que brigavam com as mulheres, que não pescavam mais nada. Por isso, elas resolveram se vingar. Ofereceram aos homens uma bebida feita de pequi, mas não haviam retirado os espinhos que envolvem o caroço. Os homens ficaram sufocados com os espinhos, que ficaram atravessados na garganta, os fazendo grunhir. Transformaram-se, assim, em porcos do mato.

Mito retirado de "O cru e o cozido, de Claude Lévi-Strauss, 1964".

"Índio Bororo", por Hercules Florence (1825-1829)
* Os Bororos são um povo indígena do tronco linguístico macro-jê. Habitam a região central do estado do Mato Grosso.



quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Pés do Amor

Montanhas embelezavam o cenário, juntamente com as mais verde árvores e um límpido e cristalino lago. Uma imensa ponte de pedra separava o reino de Isabela ao reino do sul. Dante a atravessava no momento, parando por um instante e descendo de seu cavalo para lavar o rosto. Ao virar-se para continuar sua jornada teve a surpresa de encontrar um duende com os pés em seus sacos de ouro. Irritado, tentou espantá-lo:
- O que está fazendo, duende? Tire já os pés do meu ouro!
- Oxi, doido! Estou com frio! - Falou com a voz rouca.
- Então se aqueça em outro lugar, pois já vou partir!
O duende saiu de dentro do saco com o olhar torto e resmungando. Voltou, em seguida, para as pedras debaixo do início da ponte.
Prosseguindo sua jornada até a linda princesa, que reivindicara o melhor dos aventureiros para se casar, Dante ignorou o fato desagradável que acontecera na ponte. Ansioso para encontrar sua futura esposa, pois ele sabia que era um grande herói, amarrou novamente os sacos em seu cavalo e cavalgou rapidamente até o castelo.
Diante dos imensos portões de ferro um guarda cobrava a taxa para os aventureiros que desejavam se apresentar. Dante entregou-lhe o saco de ouro e adentrou o castelo antes mesmo que fosse verificada a quantidade exigida. Correu para o grande salão, pois estava atrasado. Perante o rei, um dos guardas o alcançou e lhe impediu de se apresentar.
- Mas o que está acontecendo? - Bravejou o rei.
- Perdoe-me, vossa majestade, invés de ouro nos entregou fungos.
- O que? Lhe entreguei ouro! - Surpreendeu-se Dante.
O guarda jogou uma sacola em direção a Dante, a mesma que ele havia entregado. Quando foi aberta ele viu que realmente só haviam fungos.
- Não é possível! Alguém deve ter trocado o ouro!
- Garanto que não aqui, chequei logo após a sua entrada. Venha comigo por favor.
Dante foi expulso do castelo e frustrado encaminhou-se para a taberna. Enquanto bebia abriu a pequena sacola e jogou seu conteúdo em cima do balcão. Haviam fungos, apenas fungos.
Um jovem homem, um tanto eufórico, se aproximou. Cambaleando sentou-se ao lado de Dante e logo puxou assunto.
- Nunca vi destes cogumelos, por acaso estão a venda? - Balbuciou o homem.
- Deveria ser ouro, mas não é! Não mais. Pode ficar. - Bravejou Dante enquanto socava o balcão.
- Ouro? Quando pequeno minha mãe me contava histórias sobre duendes que transformavam metais em flores e fungos. - O homem arqueou a sobrancelha e aproximou o roste a Dante – Por acaso não encontrou um, não é?
- Como disse?
Antes que pudesse responder a homem desmaiou em cima de Dante, que empurrou sua cabeça para cima do balcão.
- Bêbado! Ótimo! - Ironizou Dante.
Retirava-se da taberna, sozinho, quando uma grande e feia mulher gritou rudemente para que levasse o jovem junto.
- Já estou fechando e não vou cuidar de bêbado!
Dante carregou o jovem em seus ombros até uma hospedaria, como se já não tivesse perdido ouro o suficiente, ainda teve de pagar um quarto extra para o bêbado.
No dia seguinte, Dante ainda não partira. Ao caminhar pelo reino ouviu boatos de que um dos candidatos transmitira uma doença à princesa e apenas uma rara flor a curaria. Todos os guardas, em nome do rei, buscavam tal flor, sem sucesso.
Voltando para a hospedaria deparou-se, finalmente, com o homem que ajudara acordado. Ele questionou o ocorrido, recordando-se vagamente de Dante. Após explicar-lhe, fazendo com que sua memória voltasse parcialmente, Dante cobrou o ouro gasto em hospedagem de volta.
- Claro, fico grato por não ter me jogado na rua. Tenho uma venda, venha comigo até lá pegar seu ouro. - Respondeu o homem – Afinal, me chamo Nate.
Em meio ao caminho, novamente o assunto sobre a doença da princesa era muito comentado, inclusive pelos guardas reais. Ouvindo a história da flor rara, Nate gritou inconsequentemente:
- Rara? Meu amigo conhece um duende que pode transformar essa flor! - Zombou.
Dante tentou intervir em vão. Quando notou já estava sendo carregado a força até o rei.
- Vossa majestade, encontramos alguém que diz saber como materializar a flor.
- Já procuramos um mago experiente, ele disse que não poderia materializá-la por ser tão rara.
- Meu senhor, este não é mago.
- Não? Então como pode materializá-la?
- Segundo seu companheiro, através de um duende.
- Não compreendo, mas não me restam muitas opções. Traga esse duende até mim! - Ordenou o rei.
- E se eu não o trouxer? - Gritou Dante.
- Então o decapitarei! - Bravejou o rei.
- Mas eu não o conheço, só o vi uma vez! - Choramingou.
- Não me interessa, traga-o para mim!
Dante voltou até a ponte e procurou o tal duende. Ele estava dormindo debaixo da ponte e foi levado até o rei assim mesmo, cochilando. Quando finalmente acordou no castelo, assombrou-se com o lugar desconhecido e logo começou a tagarelar.
O rei se aproximou e tentou acalmá-lo.
- Soube que pode transformar ouro em flores e fungos. Desejo obter uma rara flor que irá curar minha filha. O que precisa para a transformação?
- Oxi, não farei nada!
- Se não o fizer morrerá, você e Dante!
- Que doido! Vou dormir para sempre! - Gritou o duende.
Dante ao ver a expressão de ira que o rei fez desesperou-se e pediu para tentar convencer o duende.
- Transforme, por favor! - Choramingou Dante.
- Não. Vou é dormir, doido!
- Eu não quero morrer, por favor! Trago o que você quiser!
- Qualquer coisa? Quero uma marreta, doido!
Dante foi até o rei e contou-lhe a condição imposta pelo duende. Ele separou todas as marretas dos guardas e pediu que o duende escolhesse uma. Assim foi feito.
- Agora você vai transformar?
- Eu não disse isso! - Cantarolou.
- Mas já tem a marreta!
- Tudo bem. Depois da minha soneca então.
- Mas acabou de acordar...
Antes que Dante terminasse de falar o duende caiu no sono, acordando somente horas depois.
A flor necessária para a cura chamava-se rosa triste. Ninguém sabia onde encontrá-la, mas conheciam a sua aparência, com exceção do duende, que não conhecia nenhuma planta pelo nome comum. Ele mesmo costumava nomear.
- É uma flor com muitas pétalas azuis. - O rei descreveu a planta.
- Ouro é só para fungos, tragam-me prata.
Encheram um balde com prata até a metade e colocaram diante dos pés do duende. Ele afundou seus pés na prata e esperou que cada pepita se tornasse uma linda flor, porém amarelada. O rei resmungou e bateu levemente no duende.
- Eu nunca transformei essa flor! Todos só carregam ouro e eu esquento meus pésinhos lá! Não seja cruel com Pés do Amor.
- Pés do Amor? Que diabo de nome é esse?
- Duendes nomeiam seus filhos de acordo com seus talentos. Meus pés valem um grande dote! Mas não quero casar, não quero dividir minha ponte! - Bravejou – Já que não funcionou com prata, tragam-me outro metal.
Os servos trouxeram outro balde, este cheio de bronze. Novamente aqueles pés se afundaram no metal e todos esperaram que a transformação ocorresse. Flores brancas e muito belas surgiram e logo o rei pôs-se a reclamar.
Outro balde foi trago cheio de cobre. Foi transformado dessa vez em cactos e rapidamente o duende tirou os pés, que se feriram. A partir de então, recusou-se a continuar suas tentativas. O rei ficou em prantos, desesperado, implorava por mais tentativas. Mostrou a Pés do Amor uma pintura de sua amada filha.
- É a mais linda que já vi, mas machuca meus pezinhos! - Falava enquanto balançava os pés.
- Você acha? Se curá-la pode se casar com ela! - Propôs o rei em desespero.
- É por isso que dizem que o amor dói? - O duende esfregava seus pés – Me leve até ela?
O rei, em lágrimas, fez um sinal aos servos para que o acompanhassem até o quarto onde a princesa dormia.
Diante dos enormes olhos castanhos do duende surgiu uma bela dama de longos cabelos ruivos e olhos verdes. Ela acordou assustada e tossindo ao ver tanta gente em seu aposento.
Pés do Amor correu em sua direção e segurou sua mão. Lhe falando em seguida:
- Tão bela! O que sente, princesa?
A princesa puxou a mão e a guardou entre os lençóis. Olhou em seguida para os servos esperando uma explicação.
- Ele veio te curar, princesa.
- Como? Ele encontrou a flor? - Um breve sorriso surgiu em seu pálido rosto – Bem que Ez me disse através de sonhos naquelas minas de carvão.
O duende arregalou os olhos e perguntou para os servos se poderiam tentar a transformação com carvão. Assim foi feito.
A transformação havia sido bem sucedida e logo o rei planejou os preparativos para o casamento.
Dante teve seu pescoço salvo pelo sonho da princesa e os pés de um duende.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Saga Cosplay - Sono

A seguinte história é a primeira da saga cosplay, isto é, desenvolvida para gerar um conceito por detrás dos meus cosplays autorais. Estes cosplays podem ser vistos no meu instagram ou facebook, sendo que alguns deles são inspirados em algo já existente, mas outros foram totalmente inventados.
Este conto fala da minha personificação do sono, sendo da categoria de inventados. Foi divido em mais de uma parte, com a finalidade de introduzir outro cosplay na mesma história (ao qual não será revelado ainda, mas aqueles que conhecem meus cosplays talvez adivinhem!). Espero que apreciem a história e minha caracterização!

Acordara com o som da chuva batendo no vitral da janela. Havia demorado para perceber que aquele barulho pertencia à tempestade, pois nunca vira ou ouvira uma chuva tão forte e nos sonhos àquela sonoridade era diferente, soava mais alegre.
Nunca tivera um sonho triste, vivia em um mundo colorido, com belos seres a dançar ao seu redor. Os cabelos de um loiro dourado brilhavam ao sol e suas roupas eram finos véus que facilmente esvoaçavam ao vento fresco. Quando a noite chegava não era assustador, as estrelas e a lua brilhava tão intensamente que jamais havia escuridão plena. Também não havia sono, apenas energia, banquetes saborosos, brincadeiras e prosperidade.
Porém Sono não se enganava, sabia o que representava ao mundo. Todas àquelas belas imagens, por mais reais que parecessem, não passavam do cumprimento de sua personificação e dever. Sua verdadeira vida se passava em um belíssimo palácio que flutuava entre as nuvens, construído do marfim encantado que o deixava mais leve do que uma pena, assim como tudo o que estava dentro dele. Seu corpo adormecia em um salão de cristal desde seu nascimento, regendo o sono de todos os seres que se encontravam abaixo de si. Não era uma deusa, mas tinha a importância de uma, aliás, o que seria da humanidade sem o rotineiro adormecer?
Nunca abrira os olhos antes, nascera em profundo sono e assim permanecera até pouco antes deste momento. Percebeu que de todo o seu corpo, apenas a cor dos amendoados olhos castanhos não era esbranquiçada como a neve, conseguira ver-se de verdade pela primeira vez, refletida no límpido cristal ao qual o paço se constituía. Seus cabelos não eram dourados como sonhara, mas brancos, tão brancos como de uma velha. Sua pele também não era rosada, mas pálida, tão pálida como se estivesse morta. Seu toque, no entanto, era cálido e confortante.
Caminhou para a sala seguinte e encontrou borboletas peroladas voando suavemente sobre um jardim de rosas brancas, com folhas brancas e árvores igualmente brancas. A maior das borboletas pousou sobre seu ombro nu e Sono sentiu como se ela pudesse falar.
“Minha senhora, consegues caminhar e estás acordada? Isso é terrível! A loucura tomará conta dos seres abaixo se em vigília permanecer, pois não mais adormecer conseguirão!”
- Mas não sei o que me aconteceu, fui roubada, meu sono foi roubado! Devemos recuperá-lo já.
“Oh, minha senhora! Que horrível ocasião! Talvez devêssemos procurar pela Vigília, pois está sempre acordada e a tudo pode ver. Certamente nos ajudará, pois compreende sua importância, da mesma maneira que trazes o descansar, a senhora Vigília traz o despertar.”
- Então vamos busca-la imediatamente! – Disse Sono com toda a animação que conseguiu expressar, mas mesmo acordada ainda não perpassava muita energia.
“Vamos, minha senhora, mas espere um momento que buscarei algo para cobrir-se e arrumarei este cabelo desgrenhado. Não deve andar nua, evitemos o olhar de certos senhores.”
As borboletas voaram em conjunto deixando Sono sozinha por um instante. Voltaram minutos depois com uma camisola longa de algodão e a vestiram sobre a cabeça de sua senhora. Pentearam e trançaram em seguida seus longos cabelos.
Sono caminhou delicadamente para fora de seu palácio e lá encontrou uma carruagem de nuvens, puxada por cavalos que pareciam feitos de fumaça. Entrou apressada, acompanhada da Grande Borboleta, e logo partiu para o leste, em direção ao sol nascente. Seus cavalos, Adormecer, Sonolência, Devaneio e Serenidade, cavalgaram pelos céus por um longo tempo. Quando a luz do sol brilhou intensamente em sua vista, Sono avistou o palácio reluzente de ouro.
Sono e a Grande Borboleta desceram diante do colossal portão luminoso. Chamaram por Vigília, mas ela não veio. Chamaram-na novamente, mas em seu lugar veio uma bela águia de penas e olhos dourados.
“Minha senhora Sono, não alegra-me vê-la, pois não deveria estar desperta. Sua presença, no entanto, é esperada, pois minha senhora Vigília enlouqueceu completamente! Se estás de pé diante deste portão é somente porque seu sono fora roubado por àquela que aqui governa.”
- Vigília roubou meu sono? Não compreendo.
“Sim, minha senhora. A ouvia reclamando dia e noite de não poder nunca adormecer, dizia não aguentar mais ver tantos horrores acometidos pelos homens. Sei também que sentia-se em parte culpada, pois os horrores somente podem ser acometidos por aqueles despertos, nunca pelos que dormem.
Certa noite recebeu a visita de uma bruxa perversa e dela comprou uma poção capaz de roubar o sono de qualquer um que escolhesse. Guardou-a, estava relutante em usá-la e cheguei a pensar que nunca o faria até o dia de hoje. Quis buscar ajuda, mas somente posso sair deste palácio junto à minha senhora, como bem sabe sobre nós guardiões.”
- Mas se estou acordada e Vigília dorme, o que será dos seres abaixo de nós?
“Isto ninguém sabe, senhora. As leis que regem nosso mundo estão inversas, penso que ficarão acordados em seus próprios sonhos, mas sem alimentar os corpos logo morrerão.”
- É terrível! Precisamos acordá-la já!
“Eu tentei, senhora, não sabe o quanto tentei, mas nada funciona. Peço que busque a Perversa, somente aquela bruxa traiçoeira pode reverter a poção.”
Sono relutou por um instante, mas concordou em nome de seu dever com os seres que habitavam o mundo. Montou em sua carruagem e partiu, descendo dos céus até não mais avistar nuvens.

Continua...


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Canções

Ecoou pelo lago, em meio a noite, um belo e hipnotizante som. Uma canção entoada pela encantadora voz de Nanna, a dama do lago. Seus olhos e cabelos eram negros como o céu noturno, sua pele branca e sua calda azulada.
Dante ao ouvir o entoar de sua voz largou as lenhas que carregava para seguir a canção que o guiava até o lago. Diante de seus olhos surgiu a sereia. Tamanha era sua beleza que se comparava à de Afrodite. Em seu pescoço pendia um brilhante colar de âmbar.
Dante estava encantado com tamanha perfeição ou ao menos o que lhe parecia perfeito.
Nanna o avistou, assustando-se, cessando sua linda canção. Dante foi se aproximando, queria se apresentar e pedir-lhe para que continuasse a cantoria, mas tudo que Nanna disse foi:
- Vá embora! Não desejo lhe afogar, mas se não for agora as outras vão lhe avistar - Sussurrou.
- Criaturas tão serenas não poderiam me fazer mal - Disse, soltando um sorriso em seguida.
- Não é o que desejo, mas a menos que um humano cante tão bem quanto nós estou presa a este destino.
- Como? Me explique...
- Vá! Vá! - Nanna interrompeu dando-lhe sinais com os braços para que fosse embora, saindo em seguida sem dizer mais nada.
Dante partiu, sem outras opções, mas iria voltar, em breve. Estava encantado por Nanna, desejava lhe ajudar.
Enquanto esperava o momento certo para voltar ao lago, pegou um antigo e empoeirado livro, um de seus capítulos falava sobre sereias, as descrevendo como criaturas belas, unidas, noturnas, mal-intencionadas e cruéis, do qual utilizavam suas vozes angelicais para atrais homens ao mar, os afogando e os devorando em seguida.
Mal acreditou que a bela sereia que havia visto poderia ser tão malévola. Simplesmente escolheu não acreditar no que o livro dizia, pois ao se aproximar da dama do lago sentiu sua aura benevolente e cheia de compaixão, tendo ainda mais certeza quando Nanna decidiu poupá-lo.
Só então compreendeu o que ela tentara lhe explicar. Sereias são ímpias e cruéis, mas não Nanna. Ela era uma exceção, porém, uma exceção que não podia seguir seus ideais. Estava presa perante os princípios das demais sereias.
- Tenho que encontrar um bardo cuja voz seja tão bela quanto de qualquer sereia. Não compreendo o motivo, mas lembro-me de ter escutado tais palavras da sereia - Pensou alto.
Passou seus dias, desde então, na floresta próxima ao mesmo lago, esperando que seus ouvidos captassem o tom de Nanna.
Finalmente em uma noite de lua cheia a bela canção voltou a ecoar. Dante certificou-se de que Nanna estava sozinha para mais uma vez a encontrar. Ela estava distraída e só percebeu a presença de Dante quando ele já estava ao seu lado. Novamente assustou-se ao avistá-lo.
- Eu quero ajudá-la,vou buscar um humano que cante tão bem quanto a ti. Então poderei vê-la sempre, sem precisar me ocultar - Sussurrou Dante em seu ouvido.
Nanna deu um tímido sorriso e nadou apressadamente para as profundezas do lago, temendo que alguém visse os dois juntos.
Dante não se importou em não ouvir uma resposta, aquele sorriso tinha sido o bastante.
Ainda bem cedo, quando o sol nascia, Dante foi até o estábulo pegar um cavalo. Ainda não sabia como encontraria o bardo que procurava, mas pretendia cavalgar até uma cidade vizinha, cujo nome era exaltado pela sua fama cultural.
Cavalgou alguns dias, parando apenas para se alimentar, o que fez com que chegasse exausto e logo procurasse uma hospedaria.
Visitou uma grande e conhecida loja de instrumentos após uma longa noite de descanso. Lá avistou liras, flautas, violões de rodas e diversos outros instrumentos.
Direcionou-se ao vendedor e lhe perguntou os nomes dos bardos mais habilidosos que frequentava sua loja.
- Tenho que manter sigilo sobre meus fregueses - Disse o vendedor mal-humorado.
- Aposto que se me der a lista de nomes eles ficarão muito contentes em ver suas famas crescerem.
O rude vendedor o encarou sem lhe responder, apenas com um olhar de desaprovação.
- E que tal os nomes por isto? - Disse Dante enquanto estendia um punhado de moedas de ouro.
O vendedor sorriu e se aproximou de Dante, olhou para os lados e cochichou em seu ouvido um nome e um endereço. Dante saiu da venda em seguida, satisfeito. Ele seguiu precisamente o endereço recebido, chegando em um imenso castelo diante do mar e sobre as montanhas.
Adentrou os pesados portões do castelo sendo recebido por uma linda moça de olhos coloridos e cabelos prateados:
- Bem vindo à escola Riven de bardos! Deseja realizar os testes?
- Não sabia que era uma escola... - Sussurrou para si mesmo - Não vim fazer tais testes, mas agradeço. Procuro alguém chamado Tíron, imagino que seja algum tutor.
A jovem que o recebia soltou uma breve risada e então lhe respondeu:
- Não existe nenhum Tíron, ou pelo menos não fora da imaginação de nossos aprendizes. Deve ter confundido o nome, talvez busque por Tiéroni, uma de nossas instrutoras.
- É Tíron, tenho certeza, o vendedor do "Eco dos Deuses" me indicou - Falou Dante, determinado.
- Claro! Nosso fornecedor. Tiéroni compra suas flautas lá. Ele deve ter se confundido.
- Uma flautista... - Pensou alto - Posso falar com algum aprendiz, creio que não foi engano.
A jovem sorriu e levou Dante até o pavilhão. Lá haviam vários aprendizes, de diversas idades, alguns conversavam, outros tocavam seus instrumentos. Era uma grande mistura de sons.
Dante aproximou-se de um grupo de amigos e logo indagou o que eles sabiam sobre Tíron. Uma menina, que aparentava ter uns 17 anos, lhe respondeu:
- Ninguém sabe nada sobre ele, principalmente os mentores que não acreditam. Alguns alunos dizem que durante a noite ele aparece dando lições proibidas para ajudá-los. Virt disse ter o visto! - A menina apontou para um jovem sentado sozinho - Ninguém sabe no que acreditar, pois o aumento imediato de suas habilidades após o relato impressionou a todos.
Dante agradeceu à menina e foi se aproximando de Virt. Pediu-lhe para contar a tal história e tudo que Virt respondeu foi:
- Eu teria que repetir meu treinamento, estava desesperado, mas durante a noite veio esse homem se apresentando como Tíron e me ensinou uma canção, tão simples e tão encantadora, nem eu mesmo sei como a aprendi tão rapidamente.
- E como você o chamou? - Perguntou Dante com os olhos arregalados de curiosidade.
- Ele veio, meu desespero o chamou, o mesmo desespero que vejo em seus olhos. Fique acordado hoje a noite, ele vai vir lhe ajudar com sua habilidade - Respondeu Virt, pensando que Dante fosse algum aprendiz.
Dante agradeceu a informação obtida e buscou algum tutor para que lhe desse permissão para passar a noite. Objetivo que só conseguiu realizar por não ter local próximo para se hospedar, gerando pena à tutora.
Quando o céu escureceu e as estrelas brilhavam com intensidade Dante avistou um ser misterioso parado à porta de seu quarto. Seus esforços para não adormecer tinham compensado.
O baixo homem vestido em uma capa verde se aproximou e sussurrou a Dante:
- Senti seu desespero. Qual o problema?
A primeira coisa que Dante se importou foi perguntar se aquele ser era humano, pois caso não fosse teria de recomeças sua busca. Felizmente o ser afirmou.
- Não desejo aprender alguma habilidade, apenas soube da sua incrível capacidade, da qual pode salvar uma meiga e linda sereia, basta cantar ao lago.
- Não sei se devo abandonar esta instituição... - Parou por um momento para ouvir seus pensamentos - Eu irei, passei toda a minha vida aqui e agora preciso pensar somente em mim.
Ambos saíram pelos caminhos ocultos que só Tíron conhecia. Foram em somente um cavalo. Tíron estava na garupa, pois não sabia cavalgar.
No caminho foram conversando, foi explicado a Dante que o vendedor de instrumentos havia estudado na escola para bardos e Tíron chegou a ajudá-lo uma vez. Como gratidão ele oferecia suas mercadorias ao habilidoso músico.
Finalmente chegaram ao lago, após dias de viagem e diversas paradas em hospedarias. Tíron logo começou a entoar sua bela canção, enquanto dedilhava uma lira. Dante estava ao seu lado temendo o que poderia acontecer quando as sereias chegassem.
A suave melodia ecoou sobre a água, despertando as criaturas marinhas que vieram observar. Logo as sereias também vieram verificar o que se igualava às suas vozes.
Nanna surgiu timidamente acompanhada de dezenas de outras sereias. Uma delas gritou para o bardo:
- Mostre tua face!
O bardo removeu o capuz do rosto, revelando um homem moreno de feições meigas e um emaranhado de cachos pretos.
- Trouxe um humano que tem a voz tão doce quanto às suas. Assim como a querida sereia me disse que a libertaria de matar - Gritou Dante
- Presumo que Nanna seja tal sereia. Farei como o prometido, ela estará livre para escolher seu destino enquanto o homem da voz bela cantar por estes lagos - Falou uma sereia que carregava um tridente e em sua cabeça, uma coroa.
Tíron viu o sorriso alegre de Nanna e logo se apaixonou. A dama igualmente se encantou pelo bardo, pois ele era o homem que havia a libertado.
Eles se beijaram sob o brilho da lua, e, mesmo sabendo que não estariam sempre juntos, ambos estavam felizes, diferente de Dante, que se entristeceu ao ver a cena. Ele também estava encantado por Nanna. Percebeu que o coração da sereia não pertencia a ele e satisfeito por tê-la ajudado, partiu.


Ilustração por Anna Dittman.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Tengu

Tengus são criaturas do folclore japonês, um tipo de goblin, possuindo traços da religião budista e xintoísta. Esta criatura é descrita com um nariz comprido e muito marcante, a maioria  deles possuem barba. Alguns tengus são descritos com a cabeça de pássaro, mas somente aqueles considerados grandes artistas marciais. Costumam morar em florestas e montanhas.
Entre seus diversos poderes sobrenaturais estavam a capacidade de mudar de forma, ventriloquismo, teletransporte e conseguir entrar nos sonhos dos mortais. Tengus são exímios guerreiros, mas optam por causar desordem como diversão. Costumam pregar peças em sacerdotes budistas que praticam o pecado do orgulho, em autoridades que utilizam o poder para obter fama e em samurais arrogantes. Alguns acreditavam que eram estas pessoas que se tornavam tengus quando reencarnavam. Sendo assim, os tengus antipatizam àqueles contrários as leis do Dharma*.
Quando desenhados, os tengus possuíam dois aspectos: com o corpo humanoide e a cabeça de corvo (os karasu tengu) ou com feições humanas, mas dotados de asas e longos narizes (os konoha tengu). Esses últimos eram comuns ver em festivais de máscaras.

*Significa "lei natural", tomado como o caminho para a verdade superior.