domingo, 4 de junho de 2017

As doze salas do inferno - Capricórnio

Uma breve introdução ao signo de Capricórnio:

O signo de capricórnio é caracterizado por sua ambição e disciplina. Capricornianos são práticos, prudentes, pacientes e cautelosos. No entanto, são também pessimistas e fatalistas diante das situações difíceis. Raramente fazem favores por altruísmo.

Sua frase é: “Eu uso”.

A sala de capricórnio

O vento gélido cortou os céus atingindo a face de Johanna. Ela estremeceu por um instante e, enfim, percebeu-se sobre uma gloriosa montanha, diante da noite estrelada. A neve alcançava quase seus joelhos, porém já não mais desciam frios flocos.
Avistou um familiar casebre de madeira aconchegante e para lá se encaminhou. Bateu pesadamente na porta, pois já não suportava mais aquele frio. No entanto, não houve resposta. Andou até os fundos da casa com o intuito de encontrar alguém, mas havia apenas um cercado, com um bode negro nele.
Em um lapso de memória questionou-se. “Como vim mesmo parar aqui?”. E olhando mais uma vez para aquele belo animal no curral, recordou-se. “Oh, estou em uma nova sala”.
O bode negro encarou Johanna, dando lentos passos em sua direção e à medida que caminhava não mais era um animal, tornara-se uma bela mulher, porém dotada de chifres e cascos no lugar de pés.
- Tem pães e carne sobre a mesa, deve entrar e banquetear-se. – Disse a anfitriã.
- Sei o que me aguarda, e se me recusar? – Respondeu Johanna, determinada.
- Estou impressionada, criança. Meus hóspedes costumam chegar famintos até mim, alguns até imploram. Eu agradeceria se poupasse o meu e até mesmo o seu tempo. Não importa se por fome ou vontade de sair deste lugar, cedo ou tarde virá até minha mesa.
E ao ouvir estas palavras Johanna desejou acompanhar a anfitriã para dentro da casa. Sentou em uma humilde mesa posta diante de um caldeirão fervente e devorou a refeição. Em cada mordida sentia-se deslocando para uma nova realidade. Foi apenas momentos antes de acordar que percebeu, estava devorando carne humana.


Johanna e Darius percorreram viagem pelo rio até se distanciarem o suficiente da prisão. Foi somente durante a noite que encontraram uma fazenda abandonada e no celeiro puderam adormecer.
Johanna finalmente estava livre, mas possuía um assunto inacabado. Deveria ou não matar aquele que tanto a ajudou? Pensou que sim, já não sobrara muita compaixão em seu sombrio coração, mas, então, imaginou como seria sua vida dali em diante, sem nenhum sossego, pois seria perseguida por todo o mundo para novamente ser presa. Deveria montar um plano melhor, encontrando um culpado em seu lugar para dar ao guarda. Assim adormeceu, determinada a poupar a vida de Darius.
Mal havia surgido o sol e Johanna acordou seu companheiro.
- Vamos, acorde! Precisamos encontrar o culpado o quanto antes. Dê-me a adaga, ela irá nos guiar.
Darius cogitou por um instante, mas logo fora convencido e entregou a adaga momentaneamente.
A intenção de Johanna era apenas fazer uma breve encenação com a arma em mãos, fingindo que ela a direcionava por um caminho. No entanto, ao primeiro toque com a lâmina a dama entrou um transe, podendo sentir o guarda a balançando sem sucesso para trazê-la de volta. Emergiu em uma terrível escuridão e lá encontrou seu demoníaco amo.
- Sabes, minha cara, pensei que o mataria cruelmente. – Sorriu a besta.
Johanna viu-se como um vulto imerso no desconhecido. Ao falar viu que sua voz soava como um agoniante chiado.
- Matá-lo seria prático agora, mas logo aqueles guardas virão atrás de mim e jamais terei paz se não o mantiver vivo, com um culpado em meu lugar e sua crença em minhas palavras intacta.
A criatura riu com grande orgulho.
- Parece que criei um ser pior do que imaginava, manipuladora e insensível. Estou muito orgulhoso de ti, darei uma oportunidade para limpar tua imagem diante dos mortais. Mas saiba que se falhar em meu teste, nada será mais agonizante.
A adaga surgiu entre as mãos da demoníaca criatura, iluminando-se em um vermelho intenso.
- Siga a lâmina até àquela que te deu o dom, fazendo-te espelho de sua maldade. Uma igual ocupará teu lugar como culpada, mas apenas se possuir o coração mais sombrio.
Johanna abriu os olhos, saindo de seu transe. A arma ainda se iluminava e o guarda boquiaberto a encarava. Johanna sequer tentou inventar uma explicação, puxou um pergaminho velho dos bolsos de seu companheiro e estendeu sobre o chão. Um mapa abriu-se e, sugando o brilho da adaga, iluminou um caminho a ser seguido, assim como uma data e um horário.
- Nosso caminho está traçado, vamos partir imediatamente, pois acredito que devamos estar lá nesse exato horário.
Percorreram o destino, apressados, por cerca de dois dias. Não houve tempo de parada e exaustos chegaram à uma casinha exatamente como a da sala infernal de capricórnio, mas é claro, por ser uma memória revivida Johanna não se deu conta disso.
Um grito ecoou dos fundos da casa e sem perda de tempo Darius e Johanna correram até lá. Um bode negro fugia assustado e uma doce menina estendia-se sobre o chão com um monte de feno entre as mãos e um punhal cravado no peito. Uma belíssima mulher inclinava-se sobre a criança a fim de remover a arma.
- Olhe, o punhal é igual ao teu. – Gritou Darius apontando.
A misteriosa e bela dama virou-se e então Johana pode ver que se tratava de Emma. Deveria derrotar aquela que lhe apresentara a aquele destino. Não hesitou, desejava mais que tudo sua liberdade.
- Não a deixe remover o punhal, ou fugirá! – Gritou Johanna.
Mas Emma retirou o punhal do peito da garotinha e nada aconteceu, permanecia ali. Enfim ela riu solenemente.
- Fugir? Acha mesmo que tenho medo de ti, Johanna? Sou mais forte do que jamais será!
Darius atirou-se sobre Emma com espada em punho, mas sequer pode atingi-la. Fora arremessado para longe com uma poderosa magia, batendo a cabeça e desmaiando. Emma então se direcionou para Johanna.
- Não entendo o que está acontecendo, mas não me importo. Pensou que traria este tolo mortal aqui para me derrotar? Não terás minha compaixão novamente, sofrerá como nunca antes.
Emma agarrou Johanna pelo pescoço com descomunal força, jamais imaginada para sua estatura. Começou a pronunciar uma horrenda maldição enquanto sua vítima se contorcia tentando alcançar algo para salvar-se. Enfim Johanna alcançou a adaga de Emma e cravou-lhe onde pôde, em seus ombros.
Em meio a um frenesi de acontecimentos Darius acordou tonto, demorou alguns segundos para entender o que estava acontecendo e correu em direção à dama ferida e caída. O punhal com o qual fora ferida possuía todo seu próprio poder e bastou um ferimento no ombro para que se desorientasse enormemente, mas não sem antes ser capaz de finalizar sua maldição.
O guarda fora capaz de amarrá-la e confiscar sua adaga. A levaria até à prisão como culpada e Johanna seria oficialmente livre. Virou alegre para onde sua amada havia caído, mas ali havia apenas um líquido viscoso. Johanna desaparecera do mundo com a maldição de Emma e para onde será que havia ido?

domingo, 21 de maio de 2017

A história do Fondue

Olá, leitores!
Enquanto pensava uma nova postagem para o blog imaginei um assunto que sempre me interessou muito, mas que até então não havia nenhuma seção para esse tipo de postagem: cultura e história (não vinculados à contos de fadas e mitologias). Decidi, assim, inaugurar uma nova seção no blog para postagens de antropologia e história.
Portanto, esta seção não irá falar e focar criatura místicas e mágicas, mas sim nós, seres humanos, abarcando nossos símbolos, histórias, hábitos, etc.
Aproveitando uma leitura para minha monografia na área de antropologia alimentar, o primeiro post tratará uma breve história sobre comida: o surgimento e ressignificação do fondue.
Não deixem de comentar o que acharam da nova seção, além de deixar sugestões e pedidos!

O Fondue


O fondue é uma receita de origem suíça à base da mistura de queijos caros (normalmente Gruyère e Emmental) aquecidos e derretidos sobre a lamparina ou rechaud. Pode ser fundidos com vinho ou acompanhados à mesa com pedaços de pães, batatas ou legumes cozidos. Tais acompanhamentos devem ser mergulhados no fondue com um garfo comprido para serem cobertos com o queijo. Posteriormente, para servir de sobremesa, surgiu o fondue de chocolate, acompanhado de frutas. Foi somente neste período, na década de 50, que a iguaria ganhou fama, quando foi servido pelo chefe Conradi Egli no restaurante Chalet Suísse, em Nova York.


Se o fondue hoje é uma receita dotada de valorização e símbolo de alta gastronomia, não quer dizer que sempre foi assim!
O fondue foi criado na Suíça em meio à segunda guerra mundial. Em meio às batalhas e ao inverno rigoroso, os camponeses que viviam nas regiões montanhosas não tinham como buscar mantimentos na cidade e, assim, para não morrerem de fome, eles aproveitavam os restos de queijos os aquecendo e mergulhando pães enquanto o creme borbulhava. Era, portanto, originalmente preparados durante a noite por grupos de pastores produtores de leite, sendo sua única comida quente do dia.
Tradicionalmente, cada pastor colocava no caldeirão os restos de queijo que guardara no bolso e o pão preto (que era duro e muitos vezes preparado com sementes e cereais selvagens que eram consumidos frequentemente nas crises de fome) que guardara no outro. 
Fondue, portanto, é originado da refeição compartilhada, visando a sobrevivência a partir da reciprocidade e ajuda mútua. Ao se tornar uma receita nobre encorporou uma identidade e tradicionalidade atribuída à alta gastronomia da Suíça.


Fontes:
- A comida como linguagem, Ellen F. Woortmann

quinta-feira, 11 de maio de 2017

As doze salas do inferno - Sagitário

Uma breve introdução ao signo de sagitário:

Sagitário é o signo da positividade. Sagitarianos são versáteis e encantados por aventuras e o desconhecido. Possuem a mente aberta para novas ideias e experiências, mantendo uma atitude otimista inclusive quando as coisas parecem difíceis.
Neste signo as coisas tendem a surgir com naturalidade, pois espontaneidade é um dos traços que estão em destaque. Também são exímios em convencer os outros a acreditarem em algo, mesmo que não seja verdade, pois sagitarianos adoram inventar histórias.
Sua frase é: “Eu observo”.

A sala de Sagitário


Johanna dormia desconfortavelmente, sentia-se balançar sobre algo que não sabia o que era. Abriu os olhos sonolenta. A visão desembaçava aos poucos, enquanto manchas verdes tornavam-se uma linda floresta, repleta de árvores frondosas e exuberantes.
Avistou, enfim, que estava em cima de um cavalo de pelos negros a galopar, mas não era simplesmente um cavalo: de suas costas emergia o tronco de uma bela mulher, com seios nus e cabelos ondulados que pareciam flutuar ao vento no ritmo do galope. Era um centauro. Em suas mãos havia um arco curvo armado com uma flecha flamejante, bela e luminosa.
- Onde estou? – Murmurou Johanna.
A encantadora criatura não respondeu, apenas continuou, graciosamente, em seu percurso até finalmente encontrar uma área aberta, com uma belíssima visão para a lua cheia.
- Você pode descer agora, minha querida. – Falou a criatura.
Johanna pulou rumo ao chão. Ajeitou sua amarrotada roupa e encarou sua anfitriã. O enorme sorriso da dama transmitia grande positividade, tanto que Johanna sentiu-se serena, incapaz de acreditar que aquilo poderia ser uma sala zodiacal.
- Pode se lavar no lago à frente antes do que lhe aguarda. Devo ser sincera, estou aqui porque em algum momento de sua vida foi capaz de manter otimismo, apesar de grandes adversidades.
Johanna sentou-se diante do lago cristalino, iluminado apenas pelo luar. Levou as mãos à água, carregando um punhado para lavar seu rosto. Arrumou os emaranhados cabelos e enfim emergiu os braços no lago. Após terminar voltou-se para a hospitaleira dama e questionou:
- Não consigo compreender, és a primeira criatura amável neste terrível lugar.
Porém quando Johanna virou para encarar o ser zodiacal, uma flecha de fogo foi disparada em seu coração. E uma imensa dor tomou-lhe conta, intensificando-se cada vez mais até tudo se tornar brumas em sua visão.
- Eu não diria amável, talvez apenas gentil. Quando se é uma caçadora experiente, sabe que não deve alertar a caça antes do necessário.
Foi tudo que Johanna conseguiu ouvir antes de mergulhar em suas terríveis memórias, despertando em uma nova realidade.


Do corredor escuro ecoou um contínuo de pesados passos. O enorme homem parou diante da solitária e imunda cela empurrando, em seguida, um prato de sopa quente e um pedaço de pão velho.
- O pão está velho, mas ao menos pude esquentar a sopa.
Johanna levantou-se calmamente e pegou a refeição deixada para ela. Agradeceu o gentil guarda, sentou-se novamente rente às grades e enfim deu grandes mordidas no pão.
- Disseram-me o que aconteceu naquela distante noite e não fui capaz de acreditar que seria a culpada. Como alguém tão afetuosa e bela poderia fazer algo a uma inocente criança? Confesso que no início me aproximava assustado devido terríveis rumores, mas a cada dia que vinha a alimentar não conseguia ver tal maldade em seu coração, pois estava sempre a sorrir e a me tratar com cortesia, mesmo nesta cela fedorenta.
Johanna deu um meigo sorriso ao guarda, sem responde-lo em palavras. Assim, ele se despediu brevemente com um aceno e retirou-se da sala, voltando ao seu turno normal. A prisioneira continuou a comer calmamente, enquanto, em sua mente, tentava elaborar os planos para sair dali, pois no fundo a desesperava não saber o que aconteceria com ela se permanecesse ali por mais tempo.
Já havia meses que não enviava crianças à criatura que a mantinha bela e jovem e o fato de continuar desta maneira a surpreendia. Seria pela enorme quantidade que já havia enviado anteriormente, a proporcionando a vantagem desta grande pausa? Johanna sequer sabia se em algum momento realmente se degeneraria ou apenas morreria.
Assim que chegou àquela prisão sentiu-se furiosa e frustrada, pensou não haver maneira de ali escapar e que assim deveria apenas se entregar a morte. Porém já havia passado por tanta coisa e entregado sua alma à completa escuridão, sabia que ao morrer sua alma estaria condenada ao eterno sofrimento, pois já a havia trocado seu espírito pela carne. E através desse pensamento viu que aquele momento de dor e angústia não seria nada perto do de quando morresse. Encontrou-se, assim, otimista, pronta para traçar um plano, demorado o quanto fosse, para dali sair.
Quando terminou a refeição, deixou o prato vazio em frente às grades, deitando-se para dormir em um amontado de feno que a pinicava. Acordou com o tornozelo dolorido e machucado das correntes, mas suspirou fundo e simplesmente resolveu ignorar.
- Se quiser posso remover estas correntes, mas deverá ser o nosso segredo.
Johanna direcionou seu olhar e viu que o guarda chegara no exato momento. Ela balançou a cabeça positivamente, satisfeita. O guarda abriu sua cela cautelosamente, não porque temesse Johanna, mas cuidando para que, caso chegasse algum outro guarda no momento, pudesse disfarçar. Enfim removeu a corrente do tornozelo da prisioneira, deixando-a próxima caso houvesse necessidade de recolocá-la na presença de visita.
Se Johanna quis tentar escapar neste momento? Quis, mas sendo uma mulher esperta sabia que não podia. O guarda estava armado e possuía o dobro de seu tamanho, além de não conhecer os demais aposentos e saídas da prisão.
Passaram-se assim, cerca de duas semanas onde Johanna praticamente apenas comia e dormia. Mas enfim, certa vez, o guarda aproximou-se e dali surgiu uma conversa um pouco mais longa.
- Trouxe alguns livros para passar seu tempo, se por acaso souber ler.
Johanna assentiu com a cabeça. O guarda sorriu alegre e virou-se para se retirar, mas foi interrompido.
- E tu sabes ler?
O guarda virou surpreso e envergonhado disse que não sabia.
- Se quiser posso ler para nós ou até mesmo ensinar-te.
E o convite resplandeceu o guarda. Desse dia em diante, sempre que possível, o guarda visitava Johanna para ouvir histórias e aprender a ler, até finalmente começar a ouvir histórias da vida dela (ou pelo menos que ela dizia ser da vida dela) e contar suas próprias histórias. Dessa maneira surgiu um grande vínculo entre os dois.
Em uma noite pouco estrelada e de lua nova Johanna adormeceu profundamente, apesar do desconforto. Sonhou com seu amo demoníaco lhe dizendo:
- Tanto tempo nesta cela imunda, incapaz de me trazer o que lhe pedi. Estou perdendo a paciência, Johanna. Escapará amanhã, pois sabes que tem capacidade de pedir isto ao patético homem. Ele será incapaz de recusar, jamais conseguiria decepcionar a amada. Pobre e estúpido humano.
E num impulso Johanna acordou. Avistou de imediato o guarda sorridente ao lado de sua cela, trazendo-lhe um novo livro.
- Darius, tem algo que preciso lhe contar. – Esperou o guarda se aproximar um pouco mais – Aquela criança... sim, eu a matei...
Os olhos do guarda se esbugalharam em surpresa e decepção. Arremessou o livro ao lado e virou-se para sair imediatamente.
- Não, espere! Deve ouvir toda a história! Sim, eu a matei, mas não em plena consciência, foi graças a um terrível ser, capaz de controlar os puros. Sabes que ninguém jamais vai acreditar em mim e por isso nunca contei nada, mas tu, Darius... sei que confias em mim.
O guarda baixou a cabeça, apertou os punhos e por um momento refletiu sobre o que acabara de ouvir, mas não demorou a acreditar na mentira de Johanna.
- Há apenas um jeito de provar minha inocência, precisa me ajudar a sair daqui e assim poderei encontrar aquele que fez isso a mim e ao pobre garotinho. – Continuou Johanna em um falso pranto.
- Eu... eu ajudarei. Sairei agora e retornarei assim que o caminho estiver tranquilo para guiá-la.
- E outra coisa, Darius... Precisamos da adaga de volta, só ela poderá nos guiar até à criatura.
O guarda não respondeu, apenas deixou a sala, angustiado. No entanto Johanna estava confiante de que tudo daria certo.
No cair da noite Darius retornou à cela, retirando Johanna silenciosamente de lá. Entregou roupas para ela e a vestiu em uma capa de lã. Furtivamente a guiou por um longo corredor, desviando de alguns guardas e sem grande preocupação com outros que estavam adormecidos ou muito bêbados para notá-los. Levou-a por uma longa escadaria que descia até um canal estreito, onde um barquinho repousava. Colocou-a dentro do barco e antes que partissem, disse:
- Confio plenamente em ti a ponto de colocar minha honra e vida em tuas mãos. Deverei ir contigo e apenas retornar quando tal criatura for capturada, sendo possível provar que és inocente. – Levantou a camisa e mostrou a adaga – A adaga ficará comigo por enquanto para evitar que a criatura a controle.
Os planos não saíram exatamente como Johanna esperava, mas alegrou-se por funcionar e assim o barco partiu.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O Bispo do Mar

O Bispo do Mar é uma criatura marinha com relatos datados do século XVI. É descrito como meio peixe e meio homem, em sua cabeça forma-se uma mitra através das escamas, assim como suas nadadeiras parecem formar uma espécie de batina, semelhante às vestes eclesiásticas.
Segundo a lenda, ele foi capturado no ano de 1433 no Mar Báltico e foi oferecido ao rei da Polônia. No entanto, quando o rei apresentou seu novo espécime a um grupo de bispos católicos foi convencido a libertá-lo, pois o peixe gesticulou como se solicitasse sua libertação e após aprovada fez o sinal da cruz em gratidão, desaparecendo no mar em seguida.
As crenças da época diziam que os peixes bispos realizavam funções eclesiásticas entre as sereias e tritões.
Outro relato deste curioso animal foi dado no livro "Historia Animalium", onde o autor, Conrad Gesner, conta a aparição de outro Bispo do Mar na costa alemã em 1531, mas ao ser mantido em cativeiro recusou-se a comer e morreu em três dias.
Além do Bispo do Mar, outro peixe semelhante foi encontrado na Dinamarca por volta de 1546, este assemelhando aos monges, assim foi chamado Monge do Mar.

Os criptozoologistas acreditam que estes peixes não foram únicos, sendo uma espécie que vive nas profundezas dos oceanos. Outra teoria é de que essas criaturas são espécimes deficientes de animais marinhos reais.


domingo, 19 de março de 2017

As doze salas do inferno - Escorpião

Uma breve introdução ao signo de escorpião:

Pelo lado positivo é emotivo, decidido, poderoso e apaixonado. Pelo lado negativo, é ciumento, compulsivo e obsessivo, podendo ser ressentido, violento e teimoso.
Sua frase é “Eu desejo”.

A sala de Escorpião

Johanna sentiu uma pontada de dor em seu peito. Não teria levantado se não fosse por isso. Nada conseguiu avistar, pois se encontrava em profunda escuridão, sentia apenas o chão duro e empoeirado abaixo de si. Ouviu um enorme ser caminhar com inúmeras patas. Percebeu vir em sua direção e aflita ficou.
- Ingênua garotinha, tão desesperada estava em cultivar beleza e paixão que meu maléfico presente aceitou. Tomou a adaga feita de meu ferrão e encheu o coração com meu veneno. Agora deverás passar por minha sala, onde não há nada mais que trevas. Viverás e verás o sofrimento de cada alma inocente que corromperas em meu nome. – Ecoou uma voz doce, mas poderosa e amedrontadora.
Enquanto a dor em seu peito intensificava-se parecia que seus olhos se adaptava à escuridão, enxergando melhor a sala. Porém, não era sua visão que se tornava nítida, mas o veneno obscuro que a ligava com a maldita criatura, fazendo uma conexão de mentes. Percebeu com clareza, então, o demônio a quem lhe dirigia a palavra. Vislumbrou, apenas em seu pensamento, o tronco de uma mulher desnuda, face e feições terríveis e o restante do corpo de escorpião. Quando a imagem se completou em sua cabeça, sentiu um terrível calor e queimou até aparecer em outro lugar.

Arte de Josephine Wall

Passaram-se algumas longas noites desde o encontro de Johanna com a estranha criatura demoníaca dos sonhos. Nada acontecera desde então, nem sua aparência mudara. Mantinha, no entanto, a estranha adaga por perto, em uma pequena caixinha debaixo de sua cama, escondida aos olhos de Castiel.
O primeiro sonho mágico veio em uma noite de lua nova. Após desejar boa noite ao marido, vestiu-se com roupas suaves e embrulhou-se em sedosas cobertas, adormecendo rapidamente. Sentiu a alma translocar para longe, flutuando por cima de um bosque até chegar em uma clareira com cabanas e habitantes humildes. Parou diante de um pequeno quarto de criança, sem que controlasse seu próprio caminho. Ouviu o choro de bebê e quando percebeu a adaga em sua mão compreendeu sua tarefa.
Estava tão determinada e desejosa de beleza que sequer hesitou. Cantarolou até à criança, cravando-lhe o punhal no peito. Depois de executar o horrendo ato, sentiu uma onda de choque e pavor, mas não era arrependimento, era o sangue inocente lhe infestando à alma e o coração. Era o sentimento da terrível troca sendo executada: um inocente para o demoníaco ser alimentar-se em retorno de juventude e vigor.
Johanna retornou imediatamente após o assassinato para seu corpo, sua cama. Acordou antes do amanhecer com inesperada energia e força de vontade. Estava a se perguntar se aquilo realmente acontecera, se uma criança morrera por suas mãos ou se tudo não ficara apenas em sua imaginação, no reino dos sonhos. Correu os dedos sobre a caixinha que guardava o punhal e o verificou, estava coberto de sangue. Era real.
Se na primeira noite já havia sido tão fácil, nas outras seguintes Johanna deixou de sentir qualquer pesar. Tornara-se uma criatura desumana, apática a qualquer pessoa distante, mas tão intensa e realizada em sua relação com Castiel, que voltara a ser como quando jovens se enamoram pela primeira vez.
Estava novamente bela como uma ninfa, apesar de não mais o ser. A pele era formosa como uma pérola e os cabelos luminosos como fios de ouro. Estava tudo em perfeita harmonia em sua vida, quando algo inesperado ocorreu...
Adormeceu em uma nova noite para adentrar em seus sonhos místicos. Sobrevoou lagos cristalinos e chegou em um suntuoso castelo. Deparou-se diante de um quarto luxuoso e lá havia um belo menininho, mas dormindo ele não estava. Johanna aproximou-se vagarosamente, a adaga mantinha-se escondida sobre o manto.
- Ó bela criança, o que fazes acordado a essa hora? – Falou com sua voz mais serena.
- És a minha fada madrinha, encantadora dama?
- Sim, sim. Venha em meus braços, não tenhas medo. – Falava enquanto estendia os braços para o pequenino.

A criança foi ao embalo de Johanna e quando foi aninhada em seus braços, sentiu a vil lâmina penetrar-lhe as costas. Berrou como nunca antes, pois jamais sentira tanta dor. O grito alarmou os guardas, que correram para o quarto a tempo de ver o miúdo corpo esvaindo-se de vida nos braços da terrível dama. Agarraram Johanna com profundo ódio e desejo de vingança. Em meio à confusão a adaga voou de suas mãos e assim, ao tentar retornar de seu sonho, percebeu que não mais estava em um, não mais possuía o poder de voltar enquanto a adaga estivesse longe de si. Fora arrastada para prisão e quando Castiel acordou, sua amada esposa não encontrara ao seu lado.