quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Canções

Ecoou pelo lago, em meio a noite, um belo e hipnotizante som. Uma canção entoada pela encantadora voz de Nanna, a dama do lago. Seus olhos e cabelos eram negros como o céu noturno, sua pele branca e sua calda azulada.
Dante ao ouvir o entoar de sua voz largou as lenhas que carregava para seguir a canção que o guiava até o lago. Diante de seus olhos surgiu a sereia. Tamanha era sua beleza que se comparava à de Afrodite. Em seu pescoço pendia um brilhante colar de âmbar.
Dante estava encantado com tamanha perfeição ou ao menos o que lhe parecia perfeito.
Nanna o avistou, assustando-se, cessando sua linda canção. Dante foi se aproximando, queria se apresentar e pedir-lhe para que continuasse a cantoria, mas tudo que Nanna disse foi:
- Vá embora! Não desejo lhe afogar, mas se não for agora as outras vão lhe avistar - Sussurrou.
- Criaturas tão serenas não poderiam me fazer mal - Disse, soltando um sorriso em seguida.
- Não é o que desejo, mas a menos que um humano cante tão bem quanto nós estou presa a este destino.
- Como? Me explique...
- Vá! Vá! - Nanna interrompeu dando-lhe sinais com os braços para que fosse embora, saindo em seguida sem dizer mais nada.
Dante partiu, sem outras opções, mas iria voltar, em breve. Estava encantado por Nanna, desejava lhe ajudar.
Enquanto esperava o momento certo para voltar ao lago, pegou um antigo e empoeirado livro, um de seus capítulos falava sobre sereias, as descrevendo como criaturas belas, unidas, noturnas, mal-intencionadas e cruéis, do qual utilizavam suas vozes angelicais para atrais homens ao mar, os afogando e os devorando em seguida.
Mal acreditou que a bela sereia que havia visto poderia ser tão malévola. Simplesmente escolheu não acreditar no que o livro dizia, pois ao se aproximar da dama do lago sentiu sua aura benevolente e cheia de compaixão, tendo ainda mais certeza quando Nanna decidiu poupá-lo.
Só então compreendeu o que ela tentara lhe explicar. Sereias são ímpias e cruéis, mas não Nanna. Ela era uma exceção, porém, uma exceção que não podia seguir seus ideais. Estava presa perante os princípios das demais sereias.
- Tenho que encontrar um bardo cuja voz seja tão bela quanto de qualquer sereia. Não compreendo o motivo, mas lembro-me de ter escutado tais palavras da sereia - Pensou alto.
Passou seus dias, desde então, na floresta próxima ao mesmo lago, esperando que seus ouvidos captassem o tom de Nanna.
Finalmente em uma noite de lua cheia a bela canção voltou a ecoar. Dante certificou-se de que Nanna estava sozinha para mais uma vez a encontrar. Ela estava distraída e só percebeu a presença de Dante quando ele já estava ao seu lado. Novamente assustou-se ao avistá-lo.
- Eu quero ajudá-la,vou buscar um humano que cante tão bem quanto a ti. Então poderei vê-la sempre, sem precisar me ocultar - Sussurrou Dante em seu ouvido.
Nanna deu um tímido sorriso e nadou apressadamente para as profundezas do lago, temendo que alguém visse os dois juntos.
Dante não se importou em não ouvir uma resposta, aquele sorriso tinha sido o bastante.
Ainda bem cedo, quando o sol nascia, Dante foi até o estábulo pegar um cavalo. Ainda não sabia como encontraria o bardo que procurava, mas pretendia cavalgar até uma cidade vizinha, cujo nome era exaltado pela sua fama cultural.
Cavalgou alguns dias, parando apenas para se alimentar, o que fez com que chegasse exausto e logo procurasse uma hospedaria.
Visitou uma grande e conhecida loja de instrumentos após uma longa noite de descanso. Lá avistou liras, flautas, violões de rodas e diversos outros instrumentos.
Direcionou-se ao vendedor e lhe perguntou os nomes dos bardos mais habilidosos que frequentava sua loja.
- Tenho que manter sigilo sobre meus fregueses - Disse o vendedor mal-humorado.
- Aposto que se me der a lista de nomes eles ficarão muito contentes em ver suas famas crescerem.
O rude vendedor o encarou sem lhe responder, apenas com um olhar de desaprovação.
- E que tal os nomes por isto? - Disse Dante enquanto estendia um punhado de moedas de ouro.
O vendedor sorriu e se aproximou de Dante, olhou para os lados e cochichou em seu ouvido um nome e um endereço. Dante saiu da venda em seguida, satisfeito. Ele seguiu precisamente o endereço recebido, chegando em um imenso castelo diante do mar e sobre as montanhas.
Adentrou os pesados portões do castelo sendo recebido por uma linda moça de olhos coloridos e cabelos prateados:
- Bem vindo à escola Riven de bardos! Deseja realizar os testes?
- Não sabia que era uma escola... - Sussurrou para si mesmo - Não vim fazer tais testes, mas agradeço. Procuro alguém chamado Tíron, imagino que seja algum tutor.
A jovem que o recebia soltou uma breve risada e então lhe respondeu:
- Não existe nenhum Tíron, ou pelo menos não fora da imaginação de nossos aprendizes. Deve ter confundido o nome, talvez busque por Tiéroni, uma de nossas instrutoras.
- É Tíron, tenho certeza, o vendedor do "Eco dos Deuses" me indicou - Falou Dante, determinado.
- Claro! Nosso fornecedor. Tiéroni compra suas flautas lá. Ele deve ter se confundido.
- Uma flautista... - Pensou alto - Posso falar com algum aprendiz, creio que não foi engano.
A jovem sorriu e levou Dante até o pavilhão. Lá haviam vários aprendizes, de diversas idades, alguns conversavam, outros tocavam seus instrumentos. Era uma grande mistura de sons.
Dante aproximou-se de um grupo de amigos e logo indagou o que eles sabiam sobre Tíron. Uma menina, que aparentava ter uns 17 anos, lhe respondeu:
- Ninguém sabe nada sobre ele, principalmente os mentores que não acreditam. Alguns alunos dizem que durante a noite ele aparece dando lições proibidas para ajudá-los. Virt disse ter o visto! - A menina apontou para um jovem sentado sozinho - Ninguém sabe no que acreditar, pois o aumento imediato de suas habilidades após o relato impressionou a todos.
Dante agradeceu à menina e foi se aproximando de Virt. Pediu-lhe para contar a tal história e tudo que Virt respondeu foi:
- Eu teria que repetir meu treinamento, estava desesperado, mas durante a noite veio esse homem se apresentando como Tíron e me ensinou uma canção, tão simples e tão encantadora, nem eu mesmo sei como a aprendi tão rapidamente.
- E como você o chamou? - Perguntou Dante com os olhos arregalados de curiosidade.
- Ele veio, meu desespero o chamou, o mesmo desespero que vejo em seus olhos. Fique acordado hoje a noite, ele vai vir lhe ajudar com sua habilidade - Respondeu Virt, pensando que Dante fosse algum aprendiz.
Dante agradeceu a informação obtida e buscou algum tutor para que lhe desse permissão para passar a noite. Objetivo que só conseguiu realizar por não ter local próximo para se hospedar, gerando pena à tutora.
Quando o céu escureceu e as estrelas brilhavam com intensidade Dante avistou um ser misterioso parado à porta de seu quarto. Seus esforços para não adormecer tinham compensado.
O baixo homem vestido em uma capa verde se aproximou e sussurrou a Dante:
- Senti seu desespero. Qual o problema?
A primeira coisa que Dante se importou foi perguntar se aquele ser era humano, pois caso não fosse teria de recomeças sua busca. Felizmente o ser afirmou.
- Não desejo aprender alguma habilidade, apenas soube da sua incrível capacidade, da qual pode salvar uma meiga e linda sereia, basta cantar ao lago.
- Não sei se devo abandonar esta instituição... - Parou por um momento para ouvir seus pensamentos - Eu irei, passei toda a minha vida aqui e agora preciso pensar somente em mim.
Ambos saíram pelos caminhos ocultos que só Tíron conhecia. Foram em somente um cavalo. Tíron estava na garupa, pois não sabia cavalgar.
No caminho foram conversando, foi explicado a Dante que o vendedor de instrumentos havia estudado na escola para bardos e Tíron chegou a ajudá-lo uma vez. Como gratidão ele oferecia suas mercadorias ao habilidoso músico.
Finalmente chegaram ao lago, após dias de viagem e diversas paradas em hospedarias. Tíron logo começou a entoar sua bela canção, enquanto dedilhava uma lira. Dante estava ao seu lado temendo o que poderia acontecer quando as sereias chegassem.
A suave melodia ecoou sobre a água, despertando as criaturas marinhas que vieram observar. Logo as sereias também vieram verificar o que se igualava às suas vozes.
Nanna surgiu timidamente acompanhada de dezenas de outras sereias. Uma delas gritou para o bardo:
- Mostre tua face!
O bardo removeu o capuz do rosto, revelando um homem moreno de feições meigas e um emaranhado de cachos pretos.
- Trouxe um humano que tem a voz tão doce quanto às suas. Assim como a querida sereia me disse que a libertaria de matar - Gritou Dante
- Presumo que Nanna seja tal sereia. Farei como o prometido, ela estará livre para escolher seu destino enquanto o homem da voz bela cantar por estes lagos - Falou uma sereia que carregava um tridente e em sua cabeça, uma coroa.
Tíron viu o sorriso alegre de Nanna e logo se apaixonou. A dama igualmente se encantou pelo bardo, pois ele era o homem que havia a libertado.
Eles se beijaram sob o brilho da lua, e, mesmo sabendo que não estariam sempre juntos, ambos estavam felizes, diferente de Dante, que se entristeceu ao ver a cena. Ele também estava encantado por Nanna. Percebeu que o coração da sereia não pertencia a ele e satisfeito por tê-la ajudado, partiu.


Ilustração por Anna Dittman.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Tengu

Tengus são criaturas do folclore japonês, um tipo de goblin, possuindo traços da religião budista e xintoísta. Esta criatura é descrita com um nariz comprido e muito marcante, a maioria  deles possuem barba. Alguns tengus são descritos com a cabeça de pássaro, mas somente aqueles considerados grandes artistas marciais. Costumam morar em florestas e montanhas.
Entre seus diversos poderes sobrenaturais estavam a capacidade de mudar de forma, ventriloquismo, teletransporte e conseguir entrar nos sonhos dos mortais. Tengus são exímios guerreiros, mas optam por causar desordem como diversão. Costumam pregar peças em sacerdotes budistas que praticam o pecado do orgulho, em autoridades que utilizam o poder para obter fama e em samurais arrogantes. Alguns acreditavam que eram estas pessoas que se tornavam tengus quando reencarnavam. Sendo assim, os tengus antipatizam àqueles contrários as leis do Dharma*.
Quando desenhados, os tengus possuíam dois aspectos: com o corpo humanoide e a cabeça de corvo (os karasu tengu) ou com feições humanas, mas dotados de asas e longos narizes (os konoha tengu). Esses últimos eram comuns ver em festivais de máscaras.

*Significa "lei natural", tomado como o caminho para a verdade superior.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Novos Contos: Cosplays Autorais

Olá, querido leitores!

Depois de um longa jornada finalmente "As doze salas do inferno" chegou ao fim. Foram 12 capítulos de pura tragédia (além da introdução), onde Johanna enfrentou suas dolorosas memórias para se ver livre do sofrimento. Assim como vocês, leitores, eu não sabia o rumo que a série iria tomar, compartilhando o sentimento de surpresa e descoberta a cada novo capítulo escrito.

Dado o fim da saga, venho anunciar a próxima série de contos! Serão diversos contos individuais, mas todos pautados nos meus cosplays autorais, ou seja, aqueles que desenvolvi maquiagens e roupas, mas não havia criado nenhum conceito ou história por detrás deles!
Independente dessa saga, deixo aberto os comentário para sugestões e pedidos de temáticas para as próximas histórias, as quais poderão ser escritas ao mesmo tempo que os conceitos dos cosplays.

Além disso, permaneço postando os "Contos da Taberna" no blog para aqueles que preferem ler online ao invés de baixar, mesmo que possua a versão completa com mapa e ilustrações próprias para download em pdf.

E aí, gostaram do desfecho de "As doze salas do inferno"? E da nova temática de contos?

Mais do que um simples beijo

Era uma noite estrelada. Dante dormia mais uma vez na cidade, em uma pousada próxima ao lago. Devido ao calor intenso seu colar feito com o cabelo fogoso de Erin ficou inativo, pois lhe era útil somente na gélida floresta em que vivia, onde poderia ser aquecido por seu poder.
Havia passado horas bebendo na taberna, o que lhe causou enjoo e tontura naquela desconfortável madrugada. Se revirava na cama tentando em vão dormir.
Com um golpe inesperado sentiu em seu rosto algo gelado e pegajoso o atingindo. Surpreendido abriu seus olhos e se contorceu nauseado com a sensação. Avistou uma rã jogada no chão, ainda viva, se remexendo.
Revirou seus olhos com raiva e caminhou até a rã com a intenção de esmagá-la, mas uma voz exaltou-se:
- Tire seus pés por favor, sou da realeza.
Dante virou-se, porém não avistou ninguém. Novamente a voz surgiu:
- Aqui em baixo! - Gritou
Dante direcionou sua visão novamente para a rã e impressionado percebeu que a voz pertencia ao anfíbio.
- Que droga é essa? Um sapo falando! Vou voltar a dormir, pelo visto estou embriagado. - Pensou alto.
- Não seja tolo! Não está bêbado... quer dizer está! Mas eu realmente falo.
Dante ignorou. Chutou a rã, que acreditava ser sua alucinação, para o canto e deitou-se novamente, porém, desta vez dormiu rapidamente.
Os primeiros raios de sol do dia surgiram entre as montanhas e logo atingiu a cidade. Dante acordou bem cedo devido ao barulho dos quartos vizinhos. Espreguiçou-se mal humorado, estava de ressaca, mas pelo menos não mais embriagado. Ouviu um leve ruído no canto, soluços e um choro discreto. Reparou seu quarto e viu que aquela rã não era sua imaginação.
- O que aconteceu, sapo maldito? O que quer comigo? - Gritou irritado.
A rã se assustou com a voz inesperada. Dela subiu um líquido cor de rosa que escorreu no chão. Soluçando, ela virou e disse:
- Não precisa gritar! Eu só quero voltar para o Will, meu príncipe, - suspirou – mas eu preciso de ajuda, poderia me levar até ele? Eu o amo tanto...
- Como você é chata! Mal começou a falar e já estou enjoado! Não é sério que um sapo ame um homem! Se vire sozinha, isso é frescura demais para mim.
Ele se levantava para ir embora quando a rã escandalosamente grudou em sua perna tentando impedi-lo. Dante tropeçou com o susto ao mesmo tempo em que tentava remover o anfíbio. Quando finalmente conseguiu retirá-la viu que sua perna estava coberta do líquido rosa e criando pequenas bolhas. Dante olhou enraivecido para a rã.
- Desculpa, eu me desesperei. Eu me esqueço disso. - Disse a rã cabisbaixa.
- Disso? Disso o que? - Murmurou Dante.
- Não sei, essas bolinhas que surgem em quem toca no meu suor. Estranho que eu só fico soada depois de me assustar...
- Que droga! Isso não é suor, é veneno! - Berrou.
- Veneno? Não, princesas não soltam veneno! - Coaxou a rã na tentativa de rir.
- Quanta estupidez! Eu vou te ajudar porque estou com pena, pelo visto essa transformação afetou sua cabeça, mas acho bom essas bolhas saírem ou ainda te esmago! Agora diga-me onde está esse tal de Will.
A rã saltitou alegre em finalmente conseguir ajuda. Começou a explicar então:
 - O Will não vive no castelo, ele é ladino, seja lá o que for isso, mas deve ser um trabalho muito gratificante. Ele que ia me ver no castelo, então não sei onde ele está.
- Ladino? Gratificante? - Falou Dante desapontado – Onde foi então que o viu pela última vez?
- Eu estava caminhando com ele aqui pelo lago, na verdade do outro lado, pela floresta. Acabei tropeçando e cai numa poça fosforescente que estava ao lado de um frasco vazio. O Will me viu virando um sapo e saiu correndo assustado, desde então não voltou mais.
- Ladino e medroso... Grande homem... - Zombou Dante – Até agora não me deu nenhuma informação útil, ao menos lembra o que estava escrito no frasco?
- Não, mas se eu falar que era rosa ajuda?
- Provavelmente não, veremos. Vamos.
A princesa transfigurada em rã pulou no bolso de Dante, tomando cuidado para não encostar novamente em sua pele. Ambos saíram da hospedaria em direção à floresta gélida. Caminharam até Erin, mais uma vez sua ajuda seria necessária.
Ao chegarem na cabana oculta pelo musgo foram recebidos pelo lobo da feiticeira e sem protelar foram imediatamente contar o ocorrida à Erin:
- Erin, pode analisar uma poção para mim? - A rã pulou do bolso de Dante – Ela se tornou um sapo caindo numa poção rosa, pode descobrir qual foi?
- Minha habilidade é conjuração e fogo, não herbologia, posso dar uma olhada, mas não garanto nada.
Dante concordou com a cabeça e adentrou a cabana de Erin. Ela pegou a rã e observou sua espécie para procurar no livro de herbologia que estava empoeirado na estante, pelo visto ela não se interessava muito por poções.
“Transfiguração de humanos em anfíbios utiliza não somente poções como também feitiços. Os materiais necessários para a poção são: saliva de sapo, erva do bosque, pó de fada, folha de coriantro, musgo, erva dos lagos do sul e o veneno ou sangue da espécie desejada. Para anular seu efeito primeiramente é necessário identificar a espécie do sapo, pois cada uma tem um feitiço de anulação diferente...”. Leu Erin em voz alta.
- Infelizmente não conheço esta espécie de sapo, não conheço muitos animais que não são desta floresta. Talvez possa buscar um caçador ou um druida para lhe dizer a espécie – Indicou Erin – Se conseguir descobrir a espécie posso reverter o feitiço.
Dante viajou durante dias até o teixo do druida. Chegando lá, o sábio velho extraiu o veneno do sapo e identificou sua espécie lhe dizendo que para anular e efeito da poção seria necessário um beijo, mas havia um problema, o veneno em contato com a pele causava somente uma breve alergia, mas ingerido poderia ser mortal.
- Mortal? Então será necessário um sacrifício? - Dante se desesperou.
- Não necessariamente, quem beijar o sapo pode não engolir a toxina, será difícil não engolir, mas pode ocorrer. Ainda assim a língua irá inchar e impedi-lo de respirar. Será doloroso, mas seria necessário fazer um pequeno corte em sua traqueia enquanto sua língua estivesse impedindo sua respiração e enfim colocar este líquido em sua boca – Entregou-lhe um frasco – para evitar que alguma toxina permaneça em sua boca e seja engerida após o inchaço da língua. Recomendo que faça diante de um curandeiro.
- Quanto trabalho! É mais fácil achar alguém disposto a se sacrificar! - Berrou Dante.
- Espere! Não quero que o Will passe por isso! Por que não buscamos um prisioneiro a caminho da morte? - Murmurou a rã.
- Não posso voltar no castelo, já fui guarda do rei, mas fui expulso. Fui procurado por semanas até que o rei decidiu cessar às buscas, no entanto quando venho à cidade passo longe dos guardas.
Apesar da discordância do sapo não havia muita opção. Se era Will que ela queria de volta, seria ele quem correria o risco, e se morresse seria um ladino a menos.
Voltaram para a cidade e visitaram a praça central, ofereceram ouro a um senhor lhe pedindo para ir até os guardas e visse os procurados, pois Dante não poderia ir até lá. A rã foi com o velho homem para reconhecer Will. Assim foi feito e por sorte o encontraram preso na berlinda. Dante pagou sua fiança, deixando claro à princesa que iria querer seu ouro de volta.
Will se vestia como típico ladino, apesar de aparentar se cuidar mais. Por início o resgate foi estranhado e questionado, mas após ouvir a voz de sua amada aceitou o que lhe foi proposto.
- Ladino é isso? Você furta, querido? Como nunca me explicou? - Disse a rã relutante.
- Me perdoe... eu... eu não queria te perder... não sou... - Will lacrimejava quando foi interrompido.
- Legal! Posso te ajudar? - Disse a princesa com empolgação surpreendendo a todos.
- Mas tem tudo, é uma princesa! Por que deseja isso? - Falou animado.
- Quero ter emoções na vida! Mas ainda vou ser delicada! - Empinou a cabeça.
Will riu encantado. Após o reencontro voltaram até Erin e pediu que os auxiliassem na remoção da transfiguração. Mesmo pensando que não seria a melhor pessoa a fazer tal coisa, concordou.
A princesa foi beijada. Enquanto lentamente voltava à sua forma original Will cuspia suas toxinas temendo ter engolido parte delas, sua língua começou a inchar até sua respiração ficar instável. Erin lhe fez um pequeno corte na garganta, tomando cuidado para não matá-lo, e por lá o ar entrou. Colocou em sua boca o líquido que havia recebido do druida e o deitou na cama para que ficasse acomodado.
- Obrigada por sua ajuda. Irei lhe dar algum ouro em gratidão. Aliás nem falei meu nome, sou a princesa Dária.
O sapo finalmente voltara a ser uma princesa. Breve estaria novamente com Will em seu reino.


Imagem de James Creations

domingo, 6 de agosto de 2017

As doze salas do inferno - Peixes

Uma breve introdução ao signo de peixes:

“Entre os signos de água, o de peixes é o que envolve mais profundamente o ser humano no mundo psíquico e o mantém sujeito à vida psíquica como a um sonâmbulo que não aceitou despertar de seu estado onírico, ou como um sonhador que não pode chegar ao estado de vigília. Uma característica do homem de peixes é conviver com a vida psíquica de seus semelhantes, convertendo-a de alheia em própria, estando, pois, aberto a todos os impulsos passionais que lhe cheguem, facultando-lhe receber e combinar entre si as correntes psíquicas mais contrárias. Entendendo que é quase impossível que um só homem tenha capacidade moral para reestabelecer constantemente tais combinações e ser o centro de gravidade, nos encontramos frente a um grande talento mimético, que não só capacita o ser humano a dançar conforme a música, e a executa. Essa arte de imitação, que lhe permite adaptar-se ao meio, é vivida em um estado inconsciente. ”
“Para o homem superior de peixe, a redenção. É aquele que tem o poder de redimir, é um médico de almas, e essa capacidade para compreender tudo o levará também a perdoar tudo, mas não com uma débil indulgência, mas com aquela piedade curativa, triunfante, que leva a dizer: ‘não voltarás a pecar’. ”
Sua frase é: “Eu vejo”.

- O zodíaco: descobrindo os segredos de sua personalidade. – Delia Steinberg Guzmán


A sala de peixes

Johanna notou-se enfim em uma sala zodiacal diferente, uma modesta sala, praticamente vazia, a não ser por possuir um bonito sofá e as paredes reluzente e peroladas. Sentiu o teto abrir lentamente, inundando o ambiente com água salgada. Percebeu, enfim, estar em uma colossal concha.
Um magnífico peixe anjo nadou em sua direção e conforme se aproximava Johanna era capaz de sentir uma ligação psíquica se consolidando entre eles. Ouviu enfim, uma suave voz masculina em sua cabeça.
- Valente Johanna, conseguistes relembrar todas as memórias até o fim. Agora saberás como foi tua morte e enfim será libertada.
Diferente das outras salas, a criatura desta era bela e benevolente, era responsável por sua redenção e descanso, mesmo que ainda devesse lhe trazer uma última memória dolorosa para isto.
Johanna abriu os braços e esperou o encontro com o amável peixe. Suas nadadeiras esvoaçaram com encantador movimento e nos braços da dama a criatura parou. Ela sentiu algo se alterar em sua mente, tomando consciência novamente apenas diante de sua rústica cabana.



Johanna vislumbrou-se na cabana pela milésima vez, sentia-se desesperançada ao ver tantas vezes a morte de seu amado familiar. O tempo retrocedia constantemente enquanto era aguardado que isso não mais ocorresse. Parece, no entanto, que certa vez, enfim, o demônio tornara-se satisfeito com seu sofrimento e assim o tempo não se prolongou.
Acompanhou uma única vez seu antigo eu chorar noite adentro pela perda ocorrida, logo após lançar a terrível maldição contra àquela que cometera tal crime. A senhora fanática morrera conforme lembrava e tudo acontecia como em sua vaga e remota memória. Decidiu, porém, não mais gastar todo o seu tempo naquela cabana solitária e começou a observar os vizinhos, mesmo que eles não a pudessem enxergar ainda.
Em suas observações notara algo que não possuiu capacidade de perceber naquela época, os habitantes da vila já a olhavam com desconfiança e temor, mesmo que, ao contrário daquela que morrera, disfarçassem e não a perturbassem com isso.
Ignorou tal descoberta, mesmo que incomodada, pois não havia nada que pudesse fazer. O tempo continuou a passar, lenta e dolorosamente. Avistou sua jovem versão tornar-se novamente alegre, sem resquícios de tragédia ainda. Planejara uma viagem para estudar a natureza e cultuá-la e assim ela partiu. Johanna, no entanto, não conseguiu acompanha-la. Não que não quisesse, mas alguma força superior a impediu.
Os vizinhos aproveitaram a partida da jovem Johanna para fazer algo que não lhe havia passado pela mente. Cogitaram que seria uma boa ideia invadir sua casa para confirmar ou refutar as suspeitas de que ela era uma bruxa. Assim, montaram um pequeno grupo de cinco pessoas e adentraram a cabana. Mesmo que bastante supersticiosos e intrigados com algumas ervas diferentes não acharam nada relevante pela casa, mas finalmente encontraram o alçapão e o arrombaram. Desceram pelo porão e lá encontraram um altar, com inúmeras velas, punhais, vassouras e muitos materiais que desconheciam.
Amedrontados, o grupo correu para fora da casa. Gritaram para os que estavam do lado de fora para que queimassem tudo imediatamente, só assim para que a ira de Deus não caísse sobre a vila. Foi tudo providenciado muito rapidamente e logo a casa erguia-se em chamas.
- Vamos purificar a vila daquela bruxa! – Gritavam os aldeões.
Em meio às chamas uma silhueta começou a se formar. Em meio à fumaça Johanna começou a ser percebida, vagarosamente, até ser possível enxergá-la totalmente.
Os aldeões correram furiosos atrás dela, dotados de tochas e forcados. Por um momento ela pensou em permanecer, havia aguardado aquele momento ao qual seria libertada de seu sofrimento, mas então lembrou-se das demoníacas palavras, “mas não os deixe absolver-te em morte ou não haverá trato”.
Percebeu que se a pegassem ela seria queimada em praça pública e o fogo a purificaria. Poderia estar errada, mas resolveu não se arriscar. Johanna correu em prantos entre as bétulas, atravessando os galhos cortantes que lhe rasgavam as alças do vestido. Deparou-se, cansada, diante de um precipício. Jogou-se hesitante.
Seu corpo foi em encontro ao mar, sentiu o frio a abraçar, sua vida esvair-se. Encontrou-se em seguida atravessando diversas salas zodiacais, relembrando suas tragédias. Chegara enfim na última sala e quando terminou de recordar o porquê se matara, sua consciência foi se apagando, enquanto todo o sofrimento sumia e a escuridão a envolvia. Ouviu a risada alegre de seu amo demoníaco e por fim Johanna não mais existia.
Johanna tornara-se um elixir, onde sua alma tornou-se ingrediente para grande sofrimento. 


Fotografia de Eva Carollo, com a modelo Catherine Cabò.